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domingo, 13 de setembro de 2009

ROZENDO DE SOUZA BRITO

SERIE ROSARENSES ILUSTRES
Um crime em Araraquara Nº 5
HISTÓRIA DE ROSÁRIO DO CATETE - SERGIPE
1897
Rozendo de Souza Brito
(Rozendo de Souza Brito o rosarense assassinado em Araraquara )
*Adailton dos Santos Andrade



Um crime em Araraquara na época toda a impressa noticiava os fatos do linchamento do sergipano de Rosario do Catete na noite de 6 ou 7 de fevereiro de 1897. Esta notícia não retirou da professora Roza Ana de Pena Ribeiro, mãe de Rozendo de Souza Brito, e cunhada de Manoel Joaquim de Souza Brito, a capacidade de compreender os fatos, protestando, com todas as suas forças, para defender a inocência do seu filho no episódio, sustentar a legítima defesa, e clamar por justiça. A fibra da mulher sergipana alçou o vôo alto da afirmação da verdade, através de um documento que ficou para a história. Esta historia foi escrita primeiramente em Sergipe por Luis Antonio Barreto, Historiador e Jornalista, também é contada a todos que chegam em Araraquara, uma historia que ao ouvir ser contada parece uma lenda um conto que não existiu, mas esta mesma história é contada até hoje, e está na memória do povo paulista do interior de São Paulo, que reconhece que ele foi injustiçado, morto inocente.


Datado de 6 de fevereiro de 1897, ates portanto do linchamento, o documento intitulado “A Verdade dos Fatos”, repõe a atmosfera carregada e envolvente, que marcou aqueles dias fatídicos. Mesmo sendo escrito com o coração ferido de uma mãe extremosa, o texto põe ao alcance de todos, a banalidade dos acontecimentos, cujo desfecho revelou até onde o Poder pôde chegar, levado pela corrente das paixões políticas. Vale que seja transcrito, 108 anos depois, como um depoimento sincero e franco, clamando por Justiça.
(
fotos da familia dos Britos)

Entenda como aconteceu os fatos, quem conta é a Roza Ana Pena Ribeiro:

Francisco de Amaral Barros, estabelecido com Farmácia no Largo da Matriz desta cidade, moço honesto, porém de caráter fraco, assinou um depoimento em que dizia que meu filho, Rozendo de Souza Brito era turbulento e desordeiro. Sabedor do fato, meu filho requereu e obteve Certidão desse depoimento e pessoalmente, com a maior calma entendeu-se com o dito Amaral, que em nossa casa declarou o seguinte: - ‘Assinei esse depoimento em o haver lido e por me haver afirmado o Dr. Carvalho, que nada de mal continha ele e que coisa alguma sucederia. Estou, porém, pronto a retratar-me, visto que o tenho por muito correto e nunca o vi praticar desordem alguma.’ Cerca de 4 e meia da tarde do dia 30 tendo meu filho chegado à casa de volta do trabalho de guarda-livros dos srs. Abritta & Irmão, quando ia sentar-se para jantar, bate à nossa porta o sr. Manoel Joaquim de Souza Brito, farmacêutico formado e empregado do referido sr. Amaral. - ‘O sr. Amaral manda-me aqui pedir-lhe o obséquio de chegar até a farmácia para liquidar amigavelmente a questão do depoimento. Peço-lhe encarecidamente que vá já.’ Sem jantar, vestiu-se meu filho e foi sozinho ao Largo da Matriz, onde reside o sr. Amaral. Aí chegando, começou ele a conversar amigavelmente com o sr. Amaral, em um compartimento de sua casa. Conversaram ambos em voz baixa quando o sr Dr. Carvalho, que vira meu filho entrar, pois sua residência era fronteira à do sr. Amaral, sai apressadamente de sua casa e dirige-se para a farmácia. Aí chegando, pálido e raivoso, chama com a mão e pergunta-lhe: - ‘Que quer este canalhinha?’ - ‘Veio a meu pedido fazer um acordo sobre a questão do depoimento.’ - ‘Espere que já eu lhe dou o acordo que ele merece.’ Isto dizendo, dirige-se para meu filho, abutuou-o pela gola do casaco, e no meio de doestos, mete-lhe sem piedade uma grossa bengala na cabeça, fazendo-lhe vários ferimentos. Meu filho, apesar da afronta, apesar dos doestos, apesar do sangue que lhe escorria da fronte, ainda procurou desembaraçar-se do Dr. Carvalho que, nesse instante, subjugou-o, deitando-o por terra e procurando servir-se de um punhal que sempre trazia na cava esquerda do colete”. “Vendo que a morte era inevitável, e no mais sagrado direito de legítima defesa, meu filho deu-lhe um tiro de revólver de baixo para cima, do qual veio o infeliz Dr. Carvalho a falecer. Esta rápida tragédia, entre um moço débil e doente e um homem forte e poderoso, foi presenciada por inúmeras pessoas, nacionais e estrangeiras, que a essa hora se achavam no Largo da Matriz. Meu cunhado (Manoel Joaquim de Souza Brito), empregado da Farmácia, homem tímido e de uma pacatez proverbial, vendo a luta e querendo apaniguá-la, pediu ao senhor Dr.Carvalho que não batesse em seu sobrinho e meu filho e levou também várias pancadas com a grossa bengala de que se achava armado o Dr. Carvalho e fugiu para a porta da Farmácia aterrorizado dos acontecimentos acabando então o Dr.Carvalho de quebrar a bengala na cabeça de meu filho, e, vendo-se então, como o viram todos, que ela continha um enorme estoque de fino aço. Narrando os sucessos como estão e como é a pura verdade – juro-o, diante de Deus e dos homens – pergunto confiadamente: - Meu filho teve culpa desta enorme desgraça? Não lutou até a última extremidade, depois de ferido e vilipendiado sem usar de arma alguma contra seu agressor forte e poderoso? Ele não lançou mão da arma no último instante, quando viu que o Dr. Carvalho, por cima dele, cego de raiva, o ia matar com o punhal de que estava armado?
(cena do Filme sobre o linchamento em Araraguara )

Todos quantos sentem a dignidade enrubescer-lhes as faces hão de dar razão a meu infeliz filho vitima depois disso das mais atrozes perseguições e das mais negras injúrias, quando ele, preso ainda não condenado pelos seus pares, nem sequer ao socorro médico tem tido direito. É possível que sucumba na prisão, pois além de ser de natureza débil, estava enfermo e aos cuidados de um distinto clínico desta cidade. Se ele sucumbir aos maus tratos físicos que lhes estão infligindo na prisão, antes de ser julgado pelos seus pares, a maldição de Deus há de cair inexorável sobre aqueles que o oprimem, e eu apelo nesta hora para fazê-la inflexível, não olha aí o punido é um rei ou um mendigo. Sou mãe, sou velha, não tenho forças, nem recursos, mas aqueles que me lerem eu digo:
Meu filho não é um criminoso, meu filho matou para escapar de uma morte inevitável, tenho numerosas testemunhas que isso provam, apesar de lhe tolherem todos os meios de defesa, a verdade há de fulgurar rutilante e esmagadora. A justiça divina há de se impor, e ai daqueles que sacrificam o justo e o inocente e lhe negam a defesa. Estimado de toda a população desta cidade, trabalhando como um mouro, meu filho foi sempre um homem de bem e de qualidade, pois foi esta a educação que eu e meu finado marido costumávamos dar aos que de nós geravam. “Não creio que a justiça dos homens me venha faltar nesta hora de suprema angústia; se ela, entretanto, deixar-se velar, eu apelo para a justiça de Deus, que pode tardar, mas nunca falha”. A dor da mãe, o libelo tornado público, não impediu que os partidários do chefe republicano premeditasse o assassinato dos dois sergipanos, como questão de afirmação política e de honra do poder. Muitos preferiram a omissão, como o juiz da Comarca, que chegou a pedir remoção e licença ao presidente Campos Sales, com temor de levar adiante o processo. A Polícia, comandada por uma autoridade próxima do morto, mostrou-se ineficiente e omissa. Os dois presos foram deixados na cadeia, doentes, entregues à própria sorte, enquanto crescia em Araraquara o plano frio do linchamento, evitando toda e qualquer investigação. A família de Rozendo, residindo em São Carlos, lutou com o apoio de muitos sergipanos que foram às ruas, cobraram providências, mobilizaram a solidariedade pública.

A viúva de Manoel Joaquim, e seus oito filhos, em Rosário do Catete, também contou com o movimento de massa, em nome da dignidade e da Justiça. O crime cometido sob a complacência das autoridades de Araraquara jamais foi esclarecido. Os 108 anos de vida republicana colocaram a poeira da impunidade. São Paulo, e particularmente Araraquara, guardam em sua história de grandeza e de prosperidade, de lutas e vitórias políticas, esse episódio triste, como bem narrou Roza Ana Pena Ribeiro, com sua responsabilidade de mãe e de mestra.


A saga do Sertão Paulista estaria incompleta sem o episódio do assassinato dos Britos. Uma família de Rosário do Catete –Sergipe, hoje a história mostra que, ao contrário do que foi noticiado pela imprensa da época, não se tratou de um linchamento, mas simplesmente de um crime hediondo. De um duplo assassinato. Durante décadas, Araraquara conviveu com a pecha de “linchaquara”. Uma fama injusta.
A versão dos vencedores já havia sido desmistificada em livro pelo historiador Rodolpho Telarolli. A riqueza do café, que fez com que o interior paulista buscasse modos, modelos e manias francesas, também produziu monstros: coronéis que não admitiam ser contestados. E um jornalista decidiu questionar os desmandos do poder econômico da época. Terminaram, ele e o primo farmacêutico, esquartejados em praça pública. De lá para cá, dezenas, talvez centenas, de jornalistas foram executados por denunciar ou discordar de abusos e transgressões de poderosos.
Num momento em que a sociedade discute a violência em patamares ideológicos - roubo de um Rolex opõe a elite e a periferia - a reconstituição do assassinato dos Britos pode trazer à luz um pouco de reflexão. “É um enredo pronto”, disse-nos o professor da Faculdade de Imagem e Som da UFSCar, João Massarolo, convidado a ajudar na reconstituição do crime. A brevidade do tempo da televisão nos fez deixar de lado detalhes da trama que se passou há 110 anos. Mas tem todos os ingredientes: infidelidade, nepotismo, intriga e ódios. Fica a proposta aos cineastas. Mostrar, com a riqueza de detalhes que o tempo do cinema permite, a história completa.

Araraquara já faz isso. Um trabalho de formiguinha de uma contadora de histórias. Quando ouvimos Claudia Galvão, falar do crime, surgiu a idéia da reconstituição. Ela o faz com a qualidade de atriz, com a paixão de professora. Com o entusiasmo de cidadã.
Mas fica também um chamamento, não apenas ao povo de Araraquara, mas de toda a região: a possibilidade de descobrir, ou redescobrir, uma história da opulência, da injustiça, da desfaçatez. Não do nosso século, mas de dois séculos atrás. Mas que permanece viva no cotidiano de cidades e de cidadãos.
Um jovem da cidade de Rosário do Catete, que sonhava com uma vida melhor, que durante todo este tempo tentaram esconder a verdadeira história. Hoje o Povo do interior paulista sabe que o rosarense morreu inocente, e que foi tratado mesmo depois de morto como animal, nem enterrado dignamente pode ser, assim seu corpo foi jogado fora da cidade, enterrado em um lugar afastado, por ironia do desdito, este lugar hoje é maior e principal cemitério da cidade de Araraquara, “Cemitério dos Britos” família Brito da cidade de Rosário do Catete interior de Sergipe.
Uma historia comovente que agora virou filme a vida de um rosarense desconhecido para seu povo, que foi tentar a sorte em uma outra cidade que exercia a profissão de farmacêutico.
____________________________________________________
Dados do Historiador:
*
Licenciado em História, Pós-graduado em Ensino Superior em História, Pós-graduado em ‘Sergipe Sociedade e Cultura, Membro do IHGSE ( Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe). Associado a ANPUH/SE (Associação Nacional de História) . Membro na qualidade de pesquisador dos Grupos de Estudo e Pesquisa da UFS: Grupo de Estudos e Pesquisas em Memória e Patrimônio Sergipano. ( GEMPS/UFS/CNPq ) Grupo de Estudos e Pesquisas Culturas, Identidades e Religiosidades ( GPCIR/UFS/CNPq ). Grupo de Estudo e Pesquisa Diáspora Atlântica dos Sefarditas ( GPDAS/UFS/CNPq ) (Linhas de pesquisas em que atua: Arqueologia Histórica, Memória e Patrimônio Cultural sergipano, História e Patrimônio material e imaterial em Sergipe, Memória e História de Sergipe. A Cultura Criptojudaica na Diáspora Atlântica dos Sefarditas , A Sociologia de Georg Simmel e o Estudo do Criptojudaísmo. Cristãos-novos da Bahia no século XVIII ) . adailton.andrade@bol.com.br
 

13 comentários:

  1. Olá, caro Adaílton!

    Sou paulistana, mas vivo desde muito pequena aqui na cidade de Araraquara. Sempre ouvimos falar desse lamentável epísódio de 1897, que aqui gerou inúmeras lendas e histórias, dentre as quais, a de que a cidade está longe de ser próspera exatamente devido a uma maldição lançada por Roza Ana Penna Ribeiro, segundo a qual a cidade não progrediria nunca.
    Bem, jamais poderemos chamar isso de justiça feita diante da brutalidade cometida contra Manoel e Rozendo, mas o fato é que, atualmente com 193 anos e 200 mil habitantes, esta cidade está praticamente parada no tempo. Empreender aqui é cilada, a menos que você seja amiguinho político dos coroneis modernos, personificados nas famílias mais ricas e poderosas de hoje (a do atual prefeito, inclusive).
    Enfim, só duas observações: a primeira, a título de correção, é que o Cemitério do Britos é o segundo principal da cidade, sendo que o primeiro é o de São Bento (santo padroeiro daqui). Em segundo lugar, sobre o local onde estão enterrados os restos mortais dos Britos, foi construída uma capela, que hoje é local de intensa peregrinação. Atribuem a eles feitos milagrosos, além de, como mencionei, várias e interessantes lendas urbanas.

    Um grande abraço!

    Carol.

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  2. Caro Adaílton!

    Realmente a repercussão do linchamento dos Britos reflete hoje na fé e no imaginário de muitas pessoas. Tive a oportunidade de visitar o túmulo sob o qual estão os restos mortais dos Britos e pude verificar que houve uma espécie de "santificação" dos mesmos. Um número incalculável de bilhetes e cartas que remontam anos, agradecendo por graças recebidas. Inúmeras fotografias, algumas datadas do início do século adornam a sala dos milagres, como é conhecida um pequena edificação ao lado da pequena igreja construída sobre o túmulo.
    Observam-se roupas de bebês e adultos que, segundo afirmam os próprios, foram curados.
    De fato, de 1897 até 1930 o cemitério, por ser afastado,na época, do centro urbano (hoje localiza-se dentro da cidade) ficou no completo abandono, pois até 1930, permanecia no poder ainda um filho do coronel assassinado, que perseguia a todas as pessoas que ousassem mencionar o nome dos Britos.
    Mas na década de 50, com a queda dos Carvalho, houve uma conscientização sobre a realidade do caso, e foi construída a capela. Hoje o cemitério dos Britos, como é conhecido, recebe inúmeros visitantes, que como eu, fascinados pela história, buscam um pouco daquela realidade vivenciada tristemente, na época do coronelismo.

    Um grande abraço e parabéns pelo artigo!
    Aleandro (e-mail: aleandro.espelho@hotmail.com

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  3. esse episodio nos dia de hoje acabaria do mesmo modo pois a cidade continua comandada por coronéis modernos que se reunen e nao deixa a cidade crescer

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  4. ola professor Adailton ,somos de Araraquara e estamos com um projeto musical com uma musica dedicada aos BRITOS,QUANDO GRAVARMOS EU ENVIO A VOCE ,ABRAÇOS

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  5. OLA PROFESSOR ADAILTON.SOMOS DE ARARAQUARA E NO MOMENTO ESTAMOS COM UM TRABALHO MUSICAL ,ENCABEÇADO POR UMA CANÇAO EM HOMENAGEM AOS BRITOS.

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  6. bom trabalho rapazes , já ou vi a música , belo trabalho musical e resgate da nossa história parabéns

    https://www.facebook.com/140828182689241/photos/a.144097022362357.24941.140828182689241/726414044130649/?type=3&theater

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  7. A maior injustiça que Araraquara conheceu,sabemos da história através do livro do professor Telarólli,e tbm pelos antigos moradores,mas a injustiça ainda predomina em nossa cidade,infelizmente ainda estão no poder os coronéis !

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  8. Conhecemos a história e infelizmente aconteceu essa injustiça em Araraquara ,cidade maravilhosa mas quem manda aqui ainda são os coronéis ,viva Rosendo e Manoel de Brito !

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  9. Eu gostaria de saber qual é o nome do filme que fizeram sobre a história.

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    1. bom dia obrigado pela atenção
      segue o link do filme
      ARARAQUARA Memórias de uma Cidade

      https://www.youtube.com/watch?v=uF5mOUot0wA

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  10. Eu gostaria de saber qual é o nome do filme que fizeram sobre a história, pois eu não achei.

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    1. ARARAQUARA Memórias de uma Cidade
      https://www.youtube.com/watch?v=uF5mOUot0wA

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  11. Poxa, queria saber como assistir esse documentário de Araraquara. Não encontro em lugar nenhum...

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