domingo, 2 de setembro de 2018

Lygia Maynard Garcez, na História de Sergipe






Lygia Maynard Garcez
1921 – 2009
* Adailton Andrade



A filha de Augusto Maynard Gomes e Anita Vieira Maynard Gomes nasceu no dia 29 janeiro de 1921, época em que seu pai servia ao Exército Brasileiro na condição de oficial em Belo Horizonte. Ela me contava que nasceu em Minas, mas foi registrada bem depois em Sergipe, pois seu pai fazia questão que ela fosse sergipana. Dona Lígia tinha muito orgulho de ser filha do interventor e, sempre que eu ia visitá-la me contava com alegria às histórias que envolveram o jovem revolucionário pai, sentindo-se triste pelo esquecimento das autoridades para com o histórico político e militar de Augusto Maynard Gomes. Após sua mãe morrer (aos quatro anos de idade) e por seu pai estar preso, foi criada por sua avó na fazenda Caldas em Rosário do Catete. Passou um tempo como aluna interna no Colégio Nossa Senhora de Lourdes e aos 16 anos casou-se com José Garcez Vieira, união que durou 50 anos, tendo seis filhos (Maria Lygia, Ana Maria, Maria Augusta,José Garcez, Julio Augusto e Alberto ). 16 netos e 12 bisnetos . Dona Lygia faleceu ontem (19.10.2009) deixando saudades em todos que a conheceram.


quarta-feira, 27 de junho de 2018

MEMÓRIAS DE UM BISPO PROFÉTICO , NO REGIME MILITAR .

 

Dom Adriano, de  São  Cristovão  para o Rio  de Janeiro 


O cristianismo é também feito de memória. Como cristãos não podemos, pois, deixar passá-la em branco, sobretudo a profética. E como parte desta memória profética como não trazer presente aquela que nos é transmitida a partir da experiência originada de momentos críticos vividos pela sociedade brasileira no tempo da ditadura militar? E, destes momentos, como não trazer o testemunho de luminosos profetas como dom Waldir Calheiros, bispo emérito da Diocese de Barra do Piraí/Volta Redonda-RJ, falecido aos 30 de novembro de 2013? Sua trajetória, enquanto pastor da Igreja diocesana de Volta Redonda, marcada pela firmeza na fé e pela resistência diante da repressão militar, é exemplo que serve de modelo para o exercício profético do cristianismo. Em 2001 foi lançado o livro: O Bispo de Volta Redonda: memórias de Dom Waldir Calheiros[1], organizado por Célia Maria Leite Costa, Dulce Chaves Pandolfi e Kenneth Serbin. Nesta obra, desenvolvida em forma de entrevista, o bispo fez declarações sobre o período crítico e obscuro da ditadura militar. Entre os fatos narrados, a prisão dos frades dominicanos e o sequestro de dom Adriano Hipólito, na época, bispo da Diocese de Nova Iguaçu-RJ. Foi um período em que a opção preferencial pelos pobres poderia ser motivo de perseguição e morte, como também ocasião de testemunho profético por parte da Igreja do Brasil. Transcrevemos, a seguir, parte da entrevista das supracitadas organizadoras do citado livro – p. 132-133; 136-137; 138-140. “Foi marcante, para o senhor, o dia em que foi decretado o AI-5, em dezembro de 1968? Lembro-me até do local onde escutei essa notícia.

Eu estava passando por Barra Mansa, seguindo de Resende para Volta Redonda, quando ouvi a notícia extraordinária pelo rádio. O discurso do Márcio Moreira Alves na Câmara foi a gota d’água que precipitou o AI-5. Os militares, que já não estavam mais conseguindo sustentar as manifestações contra a ditadura, decidiram endurecer a repressão. Logo pensei: ‘Agora o pau vai comer’. E fiquei aguardando. Depois que o ato foi publicado, muitos desapareceram do mapa, inclusive o Márcio, que teve o mandato cassado. Não houve alternativa para continuar vivo senão sair do país. […] Sabe-se que setores da Igreja foram muito atuantes nesse momento de repressão mais intensa, dando cobertura àqueles mais visados pela ditadura. A Igreja, em toda a sua história, sempre assumiu uma posição contrária às ditaduras e acolhedora a todos os perseguidos políticos, apoiando-os e garantindo-lhes proteção. Agíamos com muita verdade. Nesse episódio do AI-5, minha participação foi relativa. Fui chamado à Nunciatura. A participação empenhada do núncio apostólico, dom Sebastião Baggio, era conhecida. Foi ele quem acolheu na Nunciatura a Branca Moreira Alves, mãe do Márcio, grande mulher, mãe e esposa.

Quase simultaneamente, comunicou-me que estava preocupado com a situação de uma outra moça da Ação Católica e pediu-me que eu desse um jeito para ela sair do Brasil. Tomei um susto com o pedido. Na época, eu era apenas um auxiliar do cardeal do Rio. O mesmo ocorreu em relação a uma presa política. Eu visitava os presos e presas políticos no Rio. Essa moça montou um esquema de fuga do presídio Talavera Bruce, em Bangu, e perguntou-me se eu poderia lhe dar cobertura quando estivesse fora. Procurei alguém que se prontificou, de imediato, a ajudar: ‘Quando bater à porta, nem precisa dizer do que se trata. Basta dizer que você mandou. Não perguntarei de onde veio’. Havia, da parte de alguns bispos e padres, essa atitude de se colocar em risco, de pôr em prática aquilo em que se acreditava. E acreditávamos que estar preso só por pensar diferente não tinha razão de ser. ‘Estive preso e você esteve comigo (Mt 25,43)’ [p. 132-133] […].   “A prisão dos dominicanos (1969) Em 1969, a repressão sobre a Igreja se intensificou, atingindo-a mortalmente, com o assassinato do padre Henrique Pereira Neto, cujo corpo, cheio de marcas de torturas, foi deixado perto da Escola de Engenharia, em Recife.[2] Padre Henrique era assistente da Juventude Universitária. Foi assassinado friamente no dia 27 de maio, como uma forma de atingir dom Hélder. Ele próprio relacionou a morte à sua pessoa e chegou a desabafar, dizendo: ‘Se é a mim que procurais, deixai os outros irem” (Jo 18,8). Mais doloroso do que a própria morte, é ver a morte de outrem por nossa causa. No dia do enterro, numa belíssima manifestação, o povo percorreu as ruas de Recife, cantando Prova de amor maior não há. A polícia cercou, ameaçou intervir, mas dom Hélder permaneceu firme, liderando o povo, numa posição muito corajosa. E a repressão ao clero prosseguiu, culminando, no final do ano, com a prisão de 11 dominicanos, um jesuíta e dois padres seculares, sob a acusação de envolvimento com a Ação Libertadora Nacional, organização que propunha a luta armada contra o regime. Essas prisões vincularam-se à morte de Carlos Marighella.[3] Que informações o senhor teve desse episódio? Os dois primeiros, frei Fernando Brito e frei Ivo Lesbuapin, foram presos no Rio de Janeiro em 2 de novembro de 1969 e levados para São Paulo.







Os freis Tito Alencar, Georgio Callegari e Maurício, que estavam no Convento dos Dominicanos, em São Paulo, foram presos dia 3. No dia seguinte, 4 de novembro, prenderam frei Romano, no Rio. E somente no dia 8 frei Betto foi detido no Seminário Cristo Rei, onde estudava, em Porto Alegre. Todos foram indiciados, mas apenas quatro foram condenados: frei Ivo, frei Fernando, frei Betto e frei Tito. Poucos anos depois, em 1974, psicologicamente desmontado pelas torturas, Tito suicidou-se em Paris. Sei que, após a morte de Mariguella, a organização deu fuga aos seus militantes que buscavam sair do país. Hoje, é do conhecimento geral que a captura e a morte de Marighella foram montadas pela repressão. A morte ocorrera dias antes. O suicídio de frei Tito deve ter abalado a Igreja. Foi um fato muito doloroso. Submetido a torturas terríveis, ele perdeu a identidade. Foi banido, depois de dois anos preso, e sacrificado. É terrível levar a pessoa a tirar sua própria vida. Não foi suicídio. Foi morte induzida. Um sistema mentiroso só podia produzir mentiras. O suicídio de frei Tito foi uma mentira. Boletins e circulares internos com as informações certas foram fundamentais para o conhecimento da verdade. Era a forma de se transmitir as informações sobre o que estava ocorrendo, diante da forte censura que vigorava?
Era a nossa forma artesanal de nos comunicarmos. Outra era enviar circulares diretamente aos bispos, quando os acontecimentos na diocese eram ocultados pela mídia. Havia também um informativo produzido em São Paulo pelo padre Charles Antoine. Outra fonte eram os informes enviados do exterior – França, Itália, Bélgica… – que, com liberdade, relatavam o que acontecia no país. Certos fatos que desconhecíamos nos eram transmitidos por revistas, cadernos e informes externos antes de sua divulgação no Brasil. Se não nos comunicássemos, ficaríamos isolados e dificilmente se entenderia nosso proceder” [136-137] […].   “O sequestro de dom Adriano Hipólito (1976) Que impacto causou na Igreja o sequestro de dom Adriano Hipólito, bispo de Nova Iguaçu? Dom Adriano vivia na Baixada Fluminense, dormitório desarrumado e sem condições de vida humana, localidade sofrida, desconhecida pelos governantes, manchada pela difamação de certa imprensa e apresentada como cidade violenta. A região encontrou em dom Adriano um pastor solidário à sua gente e à sua sorte, de posição firme nas denúncias sobre o desprezo e a injustiça dirigidos contra Nova Iguaçu e sua população, que ele repetia sempre ser de gente boa, trabalhadora e sacrificada. As pequenas crônicas n’A Folha, semanário da diocese de Nova Iguaçu, relatam os problemas de sua gente sofredora. Os pobres da região tinham a quem recorrer.
Havia muita afinidade entre nós, e algumas coincidências. Éramos ambos nordestinos. Ele havia sido auxiliar em Salvador e eu no Rio. Tomou posse como bispo de Nova Iguaçu em 1966 e, dias depois, em 8 de dezembro, fui empossado em Volta Redonda. O sequestro aconteceu em 22 de setembro de 1976, aproximadamente às 19 horas, e repercutiu forte na Igreja, principalmente junto ao episcopado. Na época, dom Alfonso Trujillo, secretário do Conselho Episcopal Latino-Americano, estava de passagem pelo Rio e foi visitar dom Adriano, quando este deixou a residência de dom Eugênio, no Sumaré. O núncio apostólico, dom Carmine Rocco, também foi ao seu encontro. A imprensa noticiou sobejamente o fato. Mas não se pode desprezar a provocação dos extremistas da linha dura do Exército, que agiram para recrudescer a situação de conflito entre Igreja e governo. No final do sequestro, explodiram o fusca de dom Adriano na frente da sede da CNBB. Não aceitavam uma Igreja do lado dos pobres. Mesmo que a Igreja não quisesse fazer a opção pelos pobres, os pobres fizeram a opção pela Igreja e a obrigaram a fazer a opção por eles. Em conversa com o senhor, dom Adriano chegou a revelar detalhes das violências a que foi submetido? Adriano me confidenciou uma coisa muito interessante, que não chegou a dizer à imprensa. Quando foi preso e jogado dentro do carro, depois que libertaram a namorada do sobrinho, colocaram-lhe um capuz na cabeça e começaram a se referir ao seu trabalho com palavrões, chamando-o de subversivo, de agitador, disso e daquilo. Naquele momento, disse-me ele que pensou: ‘Ah, já sei por que estão me sequestrando.
É por causa do meu trabalho com os pobres’. E concluiu: ‘Quando percebi isso, fui invadido por uma grande tranquilidade’. Acrescentou que, depois de muito circularem, os sequestradores fizeram-no descer do carro, despiram suas roupas e pintaram todo o seu corpo com spray vermelho. Ao sentir o líquido sobre o corpo, ele pensou: ‘Estão ungindo meu corpo para depois tocar fogo’. Já aceitando o desfecho, que felizmente não ocorreu. Afinal, por volta de 21:30h, o deixaram nu, pintado de vermelho e de mãos amarradas, em um lugar ermo nas proximidades de Campo Grande. Ele sofreu algum tipo de violência física? Ele relatou que socaram muito o seu sobrinho, também sequestrado, que dirigia o carro. Adriano pediu que não fizessem aquilo. Com ele, só diziam: ‘Cale a boca comunista, subversivo. Quem trabalha com comunista também é comunista’. Contou também que, mesmo com as duas mãos amarradas, à margem da estrada, fez sinal para um carro que passou, mas foi inútil. Até que viu um homem a pé, chamou-o, e esse o atendeu.
Enquanto conversavam, um carro aproximou-se, e o motorista, ao ver aquele homem sentado, com as mãos amarradas, diminuiu a marcha e perguntou quem era. Adriano explicou o que acontecera e disse: ‘Eles tiraram a minha roupa. Preciso pelo menos de uma calça para vestir’. O motorista morava perto, levou-o à sua casa, deu-lhe uma roupa, e com ele foi até a delegacia. Em sua declaração à imprensa, dom Adriano disse que os sequestradores haviam mandado um recado: ‘O próximo será o Calheiros, de Volta Redonda’. Quando eu soube da ameaça, lembrei-me de que, antes de pegarem Adriano, por três noites consecutivas, percebi um carro desconhecido estacionado defronte à minha casa. Também à frente da casa, do outro lado da rua, havia a Casa de Saúde São José, onde havia um ponto de táxi sempre com dois ou três carros estacionados. Talvez isso tenha inibido uma ação mais ousada. E o senhor não teve medo, dom Waldyr? Naturalmente, tomam-se certas precauções de não se expor. Mas, medo, não. O medo leva à fuga, busca o pretexto de ‘prudência’ e silencia a pessoa. Não mudei o meu ritmo de atividade. Certa vez, fui ameaçado de morte, fui avisado. Tomei minhas cautelas de não me expor. De outra feita, escapei de uma tentativa de ser pego. Alertado, soube sair da situação. Não sou um corajoso afoito.Procuro ser fiel no que acredito. O senhor recebeu apoio de setores do clero?
Dom Eugênio telefonou-me, preocupado com a minha segurança. Falou-me que sabia que a polícia já estava me dando cobertura e que o Exército se dispunha a me proteger, mas que tinha receio de se oferecer pelos conflitos que tiveram comigo. Se eu permitisse, um coronel iria me procurar. Concordei. De fato, um coronel foi conversar comigo no bispado. Entrou e foi logo começando: ‘Como o senhor, dom Waldyr, sabendo da ameaça que lhe fizeram, ainda vai fazer um sermão na Catedral de Nova Iguaçu em solidariedade a dom Adriano, chamando os sequestradores de covardes?’ Na realidade, o coronel não foi lhe dar proteção, e sim repreendê-lo. E o que o senhor respondeu? Eu não tinha nada a dizer. O que ia responder a um homem que me questionava: ‘Como o senhor, ameaçado, ainda teve coragem de falar daquela maneira?’ Que segurança me transmitia? Mais tarde, fiquei sabendo que não era coronel, e sim, médico, mas se prestava a esse papel. Foi me oferecer proteção intimidando… Acabou-se” [p. 138-140].

fonte  de  pesquisa: http://www.itf.org.br/regime-militar-memoias-de-um-bispo-profetico.html



[1]. Rio de Janeiro: FGV, 2001.
[2]. O assassinato do padre Antônio Henrique Pereira Neto, ocorrido em Recife no dia 27 de maio de 1969, teve a autoria atribuída a extremistas de direita.
[3]. A morte de Carlos Marighella, dirigente nacional da ALN, ocorreu em 4 de novembro de 1969, após a prisão de cerca de 20 membros da organização.

DOM ADRIANDO HYPOLITO , o sancristovense anônimo na história sergipana



Dom Adriano Hypolito nasceu a 18-01-1918 em São Cristovão - Sergipe. Aos 14 anos entra para o Convento dos franciscanos. É ordenado padre em 18-10-1942 , em Salvador. No ano seguinte é nomeado professor do Seminário Franciscano de Ipuarana, Paraiba, permanecendo aí até julho de 1948. Neste ano parte para Europa em estudos para a história dos franciscanos no Brasil. Em abril de 1951 volta para o Seminário de Ipuarana, atuando como diretor de estudos e professor até 1961. Neste ano é transferido para o Convento Franciscano de Salvador, onde assume a função de visitador da província franciscana e presidente do Capitulo Provincial. Em novembro de 1962 é nomeado pelo Papa João XXIII, Bispo-auxiliar de Salvador. Participa do Concilio Vaticano II, em Roma entre 1963- 1965. Em 1966 é nomeado Bispo de Nova Iguaçu. Ao tomar posse propõe um trabalho pastoral que desse respostas aos problemas da Baixada.





Dez anos após assumir o pastoreio na Diocese, Dom Adriano fora seqüestrado, espancado e abandonado, despido. De 22 de setembro de 1976, quando ocorrera o seqüestro, até hoje, ninguém foi processado, embora o jornal Movimento tenha denunciado um tenente da Vila Militar.As intimidações não cessam. O semanário litúrgico A Folha, de 29-05-77, foi falsificado aos milhares e distribuído nas igrejas da Baixada e enviada para várias partes do Brasil. No dia 19 de junho do mesmo ano, por determinação do Comandante do 1° Exército, foi cancelada uma conferência sobre Direitos Humanos, para constituição de uma Comissão de Justiça e Paz, que realizar–se–ia no Centro de Formação. E no sábado dia 18, elementos do Exército e da Polícia, procuraram repetidas vezes, o Centro de Formação sob os mais diversos pretextos e no domingo dia 19, cercaram e ocuparam o Centro de Formação, com verdadeiro aparato de guerra.




Dom Adriano não se intimidou , em 12 de fevereiro de 1978, cria a Comissão de Justiça e Paz com a finalidade de “defender os Direitos Humanos à luz da fé; considerando que se faz necessária uma entidade que assuma na Baixada Fluminense de maneira estável esta missão de defender a Justiça e a Paz, ...”Em março de 1978, Dom Adriano fora seguido secretamente em suas visitas dentro da Diocese e nas visitas que fez a outros Bispos da região. Foi vigiado até mesmo de helicóptero, durante uma conferência para o clero de Volta Redonda. Em Abril do mesmo ano, Dom Adriano recebeu ameaças de novo sequestro e castigo exemplar. Da noite de 8 para 9 de Novembro de 1979 as igrejas de Santo Antônio da Prata, Catedral e Santa Rita, amanhecem pinchadas com injúrias contra Dom Adriano. A escalada do terror atinge a Catedral, a Igreja – Mãe da Diocese. No dia 20 de dezembro de 1979, uma bomba explode no altar da Catedral. Uma carta deixada na igreja acusa Dom Adriano de proteger comunistas. “quando apoiamos uma organização que não é da Igreja propriamente, mas luta por dias melhores para todos, como o Movimento Amigo de Bairro, nós estamos na linha de Jesus Cristo: nós temos compaixão do nosso Povo.” (sermão de Dom Adriano na missa após o atentado). Em 1993 Dom Adriano inaugura o Centro de Direitos Humanos, que continuou o magnífico trabalho da Comissão de Justiça e Paz. No ano seguinte, Dom Adriano aos 76 anos, deixa a direção da Diocese e assume a título pessoal a Sociedade de Defesa dos Direitos Humanos e da Cidadania (SODIHC) e eventual colaboração na Pastoral Diocesana. Dom Adriano faleceu no dia de São Lourenço, 10 de agosto de 1996.


Quando o Imperador romano Valeriano exigiu de Lourenço os tesouros da Igreja, ele encheu o palácio de pobres, dizendo: “Eis o tesouro da Igreja”. Dom Adriano viveu realmente a opção pelos pobres. Concluímos com a saudação que Dom Adriano costumava fechar as grandes celebrações: “Viva Jesus Cristo... Viva Maria nossa Mãe Santíssima... Viva o nosso Povo sofrido da Baixada ”.
 


- O texto da extraído da página da página da Diocese de Nova Iguaçu de Nova Iguaçu. Ele é fruto de um estudo do historiador Antônio Lacerda de Meneses, do Arquivo da Cúria Diocesana.


quarta-feira, 11 de abril de 2018

HISTÓRIA DE SERGIPE PARA CONCURSO III




A CONQUISTA DE SERGIPE DEL REY


Oito de Julho é a data em que se comemora a Emancipação Política de Sergipe. Em teoria é a data cívica mais importante do calendário estadual. Infelizmente, conforme relatei nesse texto de exatamente um ano atrás, o caráter comemorativo da data foi se perdendo com o tempo, num misto de desinteresse das instituições (governamentais ou não) de se valorizar e dar a conhecer os aspectos históricos e culturais de nosso estado, bem como um certo sentimento de desapego do próprio sergipano para com esses aspectos.
No contínuo esforço de se conhecer e, principalmente, dar a conhecer esses e outros aspectos de Sergipe, iniciei uma pesquisa com o intuito de resgatar a história do “descobrimento”, conquista e consequente colonização de seu território (sem obviamente esquecer o massacre das tribos de nativos), até sua emancipação da Bahia em 1820, assim como seus inúmeros personagens. Contrariando minhas expectativas, encontrei em sites e livros um rico material (ainda que com algumas lacunas sobre determinados fatos e eventos) que, uma vez organizado, levou a um texto enorme, além de ter consumido um longo período de dedicação e escrita que fatalmente impediria sua publicação a tempo de ser postado no dia 08 de Julho, conforme minha intenção. Assim, optei por dividir o material em três textos menores (mas nem tanto), os quais irei postando a medida que forem sendo concluídos.
Nesse primeiro texto veremos como se deu o início da formação do estado de Sergipe com a chegada dos portugueses às nossas praias em 1501, as primeiras tentativas de colonização culminando numa guerra que levou ao extermínio de boa parte dos seus habitantes originários, os indígenas, em 1590. O segundo texto contará sobre a colonização propriamente dita, a invasão holandesa e anexação à Capitania da Bahia abrangendo o período de tempo entre 1590 à 1763.  Finalmente no terceiro e último texto saberemos como se deu a emancipação política, a luta pela sua confirmação e uma visão breve dos governos nos primeiros anos de autonomia política até a mudança da capital de São Cristóvão para Aracaju em 1855.
Essa foi a maneira que encontrei para não apenas celebrar os 196 anos de nossa Emancipação Política, mas especialmente nossa Sergipanidade: lembrando da história hoje virtualmente esquecida pelos sergipanos.
O primeiro relato histórico referente ao território do futuro Estado de Sergipe é encontrado em carta do piloto florentino Américo Vespúcio, onde são narrados os principais fatos ocorridos na primeira expedição exploradora enviada ao Brasil pela Coroa Portuguesa, sob o comando de Gaspar de Lemos em 1501. Informa-se nessa carta, que as três naus que compunham a expedição tiveram dificuldades em desembarcar na altura do estuário do rio São Francisco, encontrando mais ao sul praias que permitiam a frota ancorar, favorecendo também o desembarque. Com base nesse relato, os historiadores atuais concluem que esse desembarque ocorreu no litoral próximo à foz do rio Vaza-Barris.
A Expedição permaneceu cinco dias naquele local. Do contato com os nativos, Vespúcio escreveu: “…assentamos de trazer deste lugar um par de homens para aprender a língua e vieram três deles por sua vontade para o Portugal.” Conforme conclui a historiadora Maria Thetis Nunes no livro “Sergipe Colonial I” – de onde esse relato foi extraído –, foram estes os primeiros sergipanos a emigrar. No local onde aportaram predominavam as tribos Tupinambás e Caetés, mas no território viviam também os Aramurus e Kiriris nas margens dos rios São Francisco e Jacaré, os Aramaris, Abacatiaras e Ramaris no interior, além dos Boimés, Karapatós e os Natus.
Vista aérea da foz do Rio Vaza-Barris atualmente
Com a divisão do Brasil pela Coroa em 15 Capitanias Hereditárias, em 1534, os Sertões do Rio Real (como a região era conhecida entre os portugueses até então) foram integrados a Capitania da Bahia de Todos os Santos, a qual foi doada a Francisco Pereira Coutinho, português que fizera fortuna nas Índias. Em 1536 chegava o donatário à Bahia, dando inicio à colonização fundando, onde hoje se encontra o Farol da Barra em Salvador, o Arraial do Pereira, mais tarde chamada de Vila Velha do Pereira. Sua presença não teve nenhum efeito sobre Sergipe, que, esquecido, favoreceu a ação de piratas franceses que contrabandeavam com a colaboração dos Tupinambás os produtos da região, dentre eles o Pau-Brasil.
Tomé de Souza durante a construção de Salvador
Em 1547, após se retirar para a vizinha Capitania de Porto Seguro devido a divergências com alguns colonos, Francisco Pereira Coutinho retornava para Salvador quando naufragou próximo à Ilha de Itaparica, sendo aprisionado e morto pelos índios tupinambás. Com sua morte a Coroa compra a Capitania dos herdeiros e a torna sede do Governo-Geral, novo sistema implantado em virtude do fracasso do sistema anterior de Capitanias Hereditárias. Tomé de Souza foi nomeado Governador Geral sendo uma de suas atribuições a exploração das terras até o rio São Francisco.
Por essa época os Sertões do Rio Real já eram conhecidos pelo nome do principal rio da região, chamado pelos indígenas de Siriípe, que significa Rio dos Siris. No falar e principalmente no escrever dos colonizadores Siriípe foi se transformando e assumindo as pronúncias e grafias de Cirizipe, Cirigype, Serigype, até assumir sua forma atual: Sergipe. Por encontrar-se em Capitania pertencente à Coroa Portuguesa, e também para diferencia-la de uma localidade baiana chamada Sergipe do Conde, as terras passaram a ser conhecidas como Sergipe Del Rey depois de sua conquista.
Apesar das ordens reais, nem Tomé de Souza e nem seus sucessores Duarte da Costa e Mem de Sá tiveram êxito em explorar as terras sergipanas. Mas onde os colonizadores falhavam, tinham sucesso os jesuítas através de suas expedições missionárias, que adentravam os sertões inexplorados pelos portugueses com o objetivo de catequizar os selvagens indígenas.
No entanto, no governo de Mem de Sá, foi realizada uma grande perseguição aos índios, com o pretexto de puni-los por terem devorado Dom Pero Fernandes Sardinha, o Primeiro Bispo do Brasil, em 1556, durante o governo de seu antecessor, Duarte da Costa. A violência foi tamanha que, com a denúncia dos jesuítas dos crimes à corte, essa decidiu que a guerra era injusta, ordenando que os índios capturados fossem postos em liberdade. Devido a essa perseguição os indígenas do território sergipano passaram a odiar e temer os portugueses, intensificando sua aliança com os franceses.
Essa perseguição não impediu que, em 1575, o Padre Gaspar Lourenço e o Padre João Salônio, em expedição missionária da qual faziam parte alguns colonos e um grupo de soldados da Bahia, atravessem o Rio Real e ergam uma capela jesuítica nas proximidades do rio Piauí e uma escola, chamada de São Sebastião, tendo o Padre João Salônio o seu professor. Ali acabou sendo fundado pouco depois o povoado de São Tomé por Garcia D’Ávila a quem o Governador de Salvador Luís de Brito delegara o início da colonização de Sergipe e que muito provavelmente comandava a expedição. Mais tarde a vila seria rebatizada de Vila de Santa Luzia do Piaguy (como era grafado o nome do rio Piauí) e posteriormente Vila de Santa Luzia de Itanhy, a qual deu origem a cidade atual com mesmo nome. Os padres ainda construiriam mais adiante na margem direita do rio Vaza-Barris a igreja de Santo Inácio, próximo da atual cidade de Itaporanga D’Ajuda, e a igreja de São Paulo no litoral em alguma localidade próximo de onde séculos mais tarde se ergueria a atual capital, Aracaju. A empreitada dos padres contou com a colaboração e apoio de três líderes locais, que entrariam para a história de Sergipe: os Caciques Aperipê (líder as terras do rio Real até próximo ao rio Vaza-Barris), Surubi (líder da região do rio Vaza-Barris) e aquele que viria a ser seu principal líder, o Cacique Serigy (no litoral).
Atual Igreja de Santa Luzia do Itanhy
Infelizmente a colaboração com os jesuítas terminaria de forma trágica. Insatisfeito com a atuação dos padres, o Governador Luís de Brito não aprovou a fundação do povoado de São Tomé, e, sob determinação do governo português, ainda em 1575, atravessou o rio Real com um exército de soldados e moradores da Bahia. Os padres mandaram avisos de que os índios não desejavam confrontos e estavam dispostos a tornarem-se cristãos, mas o governador não lhes deu ouvidos. Na realidade, o interesse do governo luso não era o de catequizar os índios, mas sim que fossem pacificados pelos padres, facilitando assim sua captura e a conquista de suas terras.
Receando o avanço das tropas os índios fugiram das Missões, levando Luis de Brito a usar essa fuga como pretexto para caçar os fugitivos alegando “uma quebra da paz” dando inicio a um ataque violento e mortal sobre as aldeias. Na luta que se travou os indígenas, pegos de surpresa, tiveram suas aldeias destruídas, morrendo Surubi com um tiro de mosquete ao defender o Povoado de Santo Inácio, o qual também foi destruído. Aperipê foi seguido por homens do governador por cerca de cinquenta léguas, mas conseguiu escapar. Os índios sobreviventes escaparam da captura fugindo para o interior juntamente com Aperipê. Durante os combates foram capturados mais de mil e duzentos índios. Esses foram transportados para Salvador onde, em pouco mais de um ano de cativeiro a varíola e o sarampo matou metade deles.
Cidade de Itaporanga D’Ajuda: Foi nessa região que Surubi foi morto ao tentar defender seu povo do ataque ao Povoado de Santo Inácio
Para vingar a morte de Surubi, Serigy se uniu aos seus irmãos Siriri e Pacatuba (líderes das terras dos atuais rios Sergipe ao Siriri e entre os rios Poxim do Norte e São Francisco, respectivamente). Aos irmãos se uniriam ainda os Caciques Japaratuba e também Aperipê. Juntos formulam um plano de vingança. Solicitam o envio de nova missão jesuítica sob uma suposta alegação de paz. Apesar dos reforços enviados com os jesuítas, foram todos mortos, dando início à, assim chamada pela Coroa Portuguesa, “guerra justa” contra os indígenas.
Com o apoio dos quatro chefes indígenas Serigy estruturou uma forte milícia dentre os jovens guerreiros de sua tribo, reforçada pelos guerreiros das demais aldeias. Acredita-se que em torno de 20.000 índios fizessem parte dessa formação, com 1.800 deles mobilizados e prontos para o combate defendendo as terras sergipanas do invasor português, com um segundo agrupamento em constante treinamento de aproximadamente 1.000 guerreiros, cuja função era substituir prontamente os mortos na linha de frente. O próprio Serigy, auxiliado por seus comandados, escolhia os mais fortes e ágeis no manejo das flechas, zarabatanas e armas de fogo. Essas últimas eram conseguidas através de relações de troca com os franceses.
Estátua representando o Cacique Serigy, localizada no Palácio Serigy no Centro histórico de Aracaju
Sob o comando de Serigy, os índios sergipanos resistiram aos ataques portugueses até o ano de 1590. Devido a sua localização privilegiada entre a capital da Colônia e a próspera Capitania de Pernambuco, os portugueses precisavam criar caminhos seguros através do território sergipano. Mas todas essas tentativas foram rechaçadas pelos homens dos cinco caciques defensores das terras sergipanas.
O destino dos guerreiros de Serigy viria a mudar quando, cansado das constantes derrotas, o governo colonial deu ao então governador de Salvador, o Capitão-Mor Cristóvão de Barros, o comando de uma esquadra de guerra e a chefia de uma milícia a soldo ao quais se juntaram aventureiros e colonos baianos. Nas palavras de Luis Antônio Barreto, destacado historiador e jornalista sergipano, Cristóvão de Barros era um “veterano em dizimar índios”, tendo atuado junto a Mem de Sá em 1566, quando socorreram os moradores do Rio de Janeiro expulsando e massacrando os índios tamoios que ali viviam.
Nos últimos meses de 1589 a esquadra chega ao litoral sergipano na região controlada por Serigy. Travam-se intensas batalhas e, segundo alguns relatos não confirmados, o próprio Cristóvão de Barros teria tentado negociar um acordo com Serigy para fundar uma cidade nas margens do rio Sergipe, pois desejava evitar mais confrontos sangrentos. O líder indígena, no entanto rejeitou o acordo, pois sabia que essa seria o início da colonização e do extermínio de seu povo.
Seguiu-se uma intensa batalha e, após quase um mês de lutas, “na noite de ano novo de 1590, quando os arcos e flechas dos guerreiros de Baepeba (como também era conhecido Serigy) e seus aliados sucumbem aos arcabuzes das tropas portuguesas, o que se declara é que já não é possível deter o avanço dos conquistadores,” conforme relatado por Beatriz Góis Dantas, professora de Antropologia da UFS. As fontes históricas sobre o que aconteceu após a batalha falam pouco sobre o destino dos cinco caciques que resistiram até o fim. Acredita-se que, uma vez que não foi relatada a captura de nenhum deles, tenham morrido na batalha Aperipê, Siriri, Pacatuba e Japaratuba. Serigy teria sido o único capturado e enviado à prisão na Bahia onde morreu devido a uma greve de fome contra a escravidão que lhe fora imposta. Seria esse o último ato de rebeldia do guerreiro, ao qual se somou uma maldição lançada com seus últimos suspiros sobre as terras conquistadas: “Nada que se fizer por aqueles prados dará certo!” Infelizmente o colonizador não tinha interesse em documentar com detalhes nada que dissesse respeito aos nativos, por isso esses fatos não podem ser confirmados, embora seu caráter lendário ajude a enriquecer o contexto cultural sergipano.
Mural de Jenner Augusto, representando os povos indígenas de Sergipe
Com a conquista, Cristóvão de Barros funda a cidade de São Cristóvão – próximo às praias onde 265 anos depois seria construída a cidade de Aracaju -, a quarta mais antiga do Brasil, e a torna sede do governo da Capitania a qual oficializou o nome de Sergipe Del Rey. Em 1763 Sergipe seria incorporada, juntamente com as capitanias de Ilhéus e Porto Seguro à Capitania da Bahia a qual só terminaria em 08 de julho de 1820, quando da Emancipação Política promulgada por Dom João VI.
O saldo da “guerra justa” contou com mais de 4.000 índios escravizados e cerca de 2.400 mortos. No entanto, o etnocídio e o genocídio das tribos indígenas de Sergipe não parou aí, estendendo-se por todo o século XVII e XVIII com o avanço para o interior e às margens do São Francisco onde se refugiaram os poucos sobreviventes da Guerra de Conquista de Sergipe. Resistindo ao desaparecimento, sobrou apenas a comunidade indígena Xokó, na antiga Missão de São Pedro em Porto da Folha, município do sertão sergipano às margens do rio São Francisco.
Brasão da capitania de Sergipe Del Rey