segunda-feira, 2 de novembro de 2026

II ENCONTRO NACIONAL DAS PROCISSÕES DO FOGARÉU DO BRASIL

 

 

FÉ, HISTÓRIA, CULTURA E PRESERVAÇÃO DA MEMÓRIA

 ( CAXIAS, MARANHÃO )


O Encontro Nacional das Procissões do Fogaréu do Brasil consolidou-se como o mais relevante fórum de articulação, valorização e salvaguarda dessa centenária manifestação cultural e religiosa no país. A celebração, que recria ritualmente os momentos decisivos da perseguição e prisão de Jesus Cristo durante a Semana Santa por meio do emblemático cortejo dos farricocos, ultrapassa as fronteiras de uma prática devocional isolada para se afirmar como um elemento estruturante de identidade, pertencimento e patrimônio imaterial para diversas comunidades brasileiras.

1º Encontro Nacional: O Marco Inicial na Cidade de Goiás (2025)





A trajetória de integração em rede entre os grupos organizadores teve seu ponto de partida no 1º Encontro Nacional das Procissões do Fogaréu, realizado na Cidade de Goiás (GO) no mês de setembro de 2025. O município goiano detém o título de berço secular da manifestação no Brasil, tendo introduzido o ritual ainda no século XVIII   mais precisamente em 1745, sob a liderança do religioso espanhol Frei João Calábria.

Na tradição goiana, a procissão ganha vida na transição da Quarta para a Quinta-Feira Santa, pontualmente à meia-noite. Em uma atmosfera de forte impacto sensorial, toda a iluminação pública do centro histórico barroco é desligada, e as ruas de pedra sabão passam a ser iluminadas exclusivamente pela chama das tochas conduzidas pelos 40 farricocos   figuras mascaradas com túnicas coloridas e chapéus pontiagudos que simbolizam os soldados romanos. O cortejo avança em ritmo acelerado da Igreja da Boa Morte até a Igreja de São Francisco de Paula, local que representa o Jardim das Oliveiras (Gethsêmani), onde a prisão de Cristo é anunciada com o toque da clarim e o hasteamento do estandarte pintado com a imagem do Salvador.

Sediado nesse cenário histórico, o evento de 2025 foi fundamental para promover o primeiro grande intercâmbio de saberes entre lideranças comunitárias e pesquisadores. Foi nessa ocasião que se constituiu a Comissão Nacional de Salvaguarda das Procissões do Fogaréu, estabelecendo uma agenda conjunta para o reconhecimento das variantes regionais, a preservação da memória e a proposição de políticas públicas de proteção ao patrimônio imaterial.

2º Encontro Nacional: A Afirmação da Rede em Caxias (2026)




Dando continuidade ao fortalecimento dessa articulação nacional, o 2º Encontro Nacional realizou-se entre os dias 30 de outubro e 1º de novembro de 2026 no município de Caxias, no Maranhão. Promovido pela Comissão Nacional de Salvaguarda em parceria com a Prefeitura Municipal de Caxias  onde a Procissão do Fogaréu é oficialmente reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial do Estado  , o evento reuniu mais de 150 participantes diretos e delegações oriundas de 37 cidades, representando nove estados brasileiros.

A celebração caxiense, que conta com mais de duas décadas de organização continuada, desenvolveu uma linguagem própria que combina a penitência religiosa com a expressão teatral de rua. A programação reúne encenações da vida pública de Jesus Cristo, abrangendo desde a vocação dos apóstolos até as horas que antecedem sua captura. O ritual inicia-se no adro da Catedral de Nossa Senhora dos Remédios e percorre as vias do Centro Histórico com fiéis e farricocos conduzindo tochas acesas, atingindo seu ponto alto na Igreja do Rosário, espaço transformado em cenário simbólico para a representação do Horto das Oliveiras e da prisão de Cristo.

A Delegação Sergipana e a Escolha das Próximas Sedes


 

A participação do estado de Sergipe no encontro em Caxias destacou-se pela presença de uma comitiva representativa de municípios com histórico de profunda religiosidade popular, reunindo integrantes de São Cristóvão, Laranjeiras, Neópolis e Rosário do Catete.

Conforme o estatuto da comissão organizadora nacional, os encontros são projetados para ocorrer bienalmente, cabendo ao plenário da última plenária indicar a cidade-sede do evento subsequente. No pleito realizado em Caxias, apresentaram-se como candidatas as cidades de São Cristóvão (SE) e Ouro Preto (MG). Diante da ausência da comissão mineira durante as deliberações finais, o município sergipano permaneceu como a única postulação formalizada.

Buscando harmonizar os anseios das comunidades integrantes sem comprometer o planejamento das festividades de grande porte, os membros da comissão nacional aprovaram uma flexibilização excepcional na periodicidade bienal. Ficou deliberado que a cidade de Serrinha, na Bahia, sediará uma edição extraordinária do Encontro Nacional em 2027, enquanto a Cidade Histórica de São Cristóvão assumirá a sede oficial do evento em 2028.

Articulação Estadual a Partir de 2027: Sergipe Unido pela Fé




Como parte fundamental desse processo preparatório, São Cristóvão assumirá um papel de liderança regional ao criar, a partir de 2027, uma Comissão Estadual das Procissões do Fogaréu. A iniciativa visa oferecer suporte técnico, institucional e comunitário a todos os municípios sergipanos que tenham interesse em resgatar, organizar ou fortalecer suas manifestações do Fogaréu.

Com essa articulação prévia, todo o estado de Sergipe caminhará unido para construir um encontro estadual e nacional amplamente fortalecido nos pilares da devoção, do intercâmbio de experiências e do apoio mútuo entre as cidades irmãs.


  
   


 São Cristóvão 2028: Patrimônio, Fé e o Cinquentenário do Grupo G12

A escolha de São Cristóvão para acolher o encontro nacional em 2028 insere-se em um contexto de extraordinária densidade histórica e religiosa. Quarta cidade mais antiga do Brasil e detentora do título de Patrimônio da Humanidade concedido pela UNESCO (à Praça São Francisco), a "cidade mãe" de Sergipe preserva documentos oficiais de sua fundação em 1590 e memórias que recuam a 1575, data da chegada da primeira missão de catequese na região, conduzida pelo Padre Gaspar Lourenço e pelo Irmão João Salônio.



                                 



Durante a defesa do pleito em Caxias, a delegação apresentou a sólida infraestrutura e o vasto calendário devocional do município. São Cristóvão é palco de grandes manifestações de fé, como a secular Romaria do Senhor dos Passos, a tradição dos tapetes florais e coloridos no dia de Corpus Christi, a preservação de conventos e ordens terceiras seculares, o monumento ao Cristo Redentor  um dos mais antigos erguidos no país  , o conjunto histórico da Santa Casa de Misericórdia e o registro da passagem de Santa Dulce dos Pobres, que tomou seus primeiros votos religiosos no Convento do Carmo local.

 O ano de 2028 terá um significado ainda mais marcante para a comunidade local, pois coincidirá com as comemorações dos 50 anos de fundação do Grupo G12. Criado em 1978 e dirigido por Daniel Lima Costa, Manoel Muniz e Luiz Carlos, e estando hoje sob a liderança de Valmir Passos, o grupo foi constituído por moradores locais com a missão de reorganizar, proteger e manter viva a realização da Procissão do Fogaréu na cidade. Ao longo de cinco décadas de atuação continuada e compromisso comunitário, a condução desses lideres permitiu ao Grupo G12 estabelecer uma forma singular de realizar o Fogaréu, articulando a caminhada penitencial com a representação teatral da Paixão de Cristo nas ladeiras históricas.

A Procissão do Fogaréu sancristovense apresenta especificidades marcantes em relação às tradições de Goiás e do Maranhão   seja no desenho das indumentárias dos farricocos, na escolha dos percursos urbanos ou na integração entre liturgia e dramaturgia local. Essa diversidade de formas expressa a própria riqueza do patrimônio imaterial brasileiro, reforçando o valor de pesquisas documentais e inventários desenvolvidos por entidades como a Confraria de História e Memória de São Cristóvão e o próprio Grupo G12.

O Sentido do Fogaréu: A Chama da Fé


 Foto:    Heitor  Xavier     

Dessa forma, a Cidade Histórica de São Cristóvão estará com suas portas e seu acervo secular prontos em 2028 para acolher pesquisadores, grupos folclóricos, irmandades e fiéis de todas as regiões do Brasil que mantêm acesa a chama do Fogaréu.

São Cristóvão 2028: Patrimônio, Fé e o Cinquentenário do Grupo G12

A escolha de São Cristóvão para acolher o encontro nacional em 2028 insere-se em um contexto de extraordinária densidade histórica e religiosa. Quarta cidade mais antiga do Brasil e detentora do título de Patrimônio da Humanidade concedido pela UNESCO (à Praça São Francisco), a "cidade mãe" de Sergipe preserva documentos oficiais de sua fundação em 1590 e memórias que recuam a 1575, data da chegada da primeira missão de catequese na região, conduzida pelo Padre Gaspar Lourenço e pelo Irmão João Salônio.

Durante a defesa do pleito em Caxias, a delegação apresentou a sólida infraestrutura e o vasto calendário devocional do município. São Cristóvão é palco de grandes manifestações de fé, como a secular Romaria do Senhor dos Passos, a tradição dos tapetes florais e coloridos no dia de Corpus Christi, a preservação de conventos e ordens terceiras seculares, o monumento ao Cristo Redentor   um dos mais antigos erguidos no país , o conjunto histórico da Santa Casa de Misericórdia e o registro da passagem de Santa Dulce dos Pobres, que tomou seus primeiros votos religiosos no Convento do Carmo local.

O ano de 2028 terá um significado ainda mais marcante para a comunidade local, pois coincidirá com as comemorações dos 50 anos de fundação do Grupo G12. Criado em 1978 e dirigido por Daniel Lima Costa, Manoel Muniz e Luiz Carlos, e estando hoje sob a liderança de Valmir Passos, o grupo foi constituído por moradores locais com a missão de reorganizar, proteger e manter viva a realização da Procissão do Fogaréu na cidade. Ao longo de cinco décadas de atuação continuada e compromisso comunitário, a condução desses lideres permitiu ao Grupo G12 estabelecer uma forma singular de realizar o Fogaréu, articulando a caminhada penitencial com a representação teatral da Paixão de Cristo nas ladeiras históricas.

A Procissão do Fogaréu sancristovense apresenta especificidades marcantes em relação às tradições de Goiás e do Maranhão   seja no desenho das indumentárias dos farricocos, na escolha dos percursos urbanos ou na integração entre liturgia e dramaturgia local. Essa diversidade de formas expressa a própria riqueza do patrimônio imaterial brasileiro, reforçando o valor de pesquisas documentais e inventários desenvolvidos por entidades como a Confraria de História e Memória de São Cristóvão e o próprio Grupo G12.

O Sentido do Fogaréu: A Chama da Fé

Dessa forma, a Cidade Histórica de São Cristóvão estará com suas portas e seu acervo secular prontos em 2028 para acolher pesquisadores, grupos folclóricos, irmandades e fiéis de todas as regiões do Brasil que mantêm acesa a chama do Fogaréu.

 

 Fotos: Heitor  Xavier     

O encontro nacional servirá como espaço privilegiado para a troca de saberes e o fortalecimento de uma rede que teve na Cidade de Goiás a sua primeira luz guia. Acima de qualquer dimensão turística ou valor histórico-cultural  que são vastos e inegáveis  , a essência da Procissão do Fogaréu reside no ato de fé, na espiritualidade comunitária e na renovação da esperança cristã, lembrando a cada tocha empunhada nas trevas da noite que todo o supremo sacrifício da Paixão e da Crucificação de Jesus Cristo não foi em vão.



  Fotos: Heitor  Xavier     

 Fotos: Heitor  Xavier     


Viva a Procissão do Fogaréu! Viva a Cidade Histórica de São Cristóvão!

Agradecimentos

Reconhecendo a grandeza dessa caminhada de integração e salvaguarda, registramos um agradecimento público e solene à Comissão Organizadora Nacional nas pessoas de Guilherme Siqueira e Leonardo Barata.

Por meio deles, estendemos nossa profunda gratidão e saudação a todos os membros da Comissão Nacional de Salvaguarda e da Comissão Local de Caxias pela impecável dedicação, sensibilidade e empenho na realização deste momento histórico: o II Encontro Nacional das Procissões do Fogaréu do Brasil.


   Fotos: Heitor  Xavier     
   

O encontro nacional servirá como espaço privilegiado para a troca de saberes e o fortalecimento de uma rede que teve na Cidade de Goiás a sua primeira luz guia. Acima de qualquer dimensão turística ou valor histórico-cultural   que são vastos e inegáveis  , a essência da Procissão do Fogaréu reside no ato de fé, na espiritualidade comunitária e na renovação da esperança cristã, lembrando a cada tocha empunhada nas trevas da noite que todo o supremo sacrifício da Paixão e da Crucificação de Jesus Cristo não foi em vão.

Viva a Procissão do Fogaréu! Viva a Cidade Histórica de São Cristóvão!

Agradecimentos

Reconhecendo a grandeza dessa caminhada de integração e salvaguarda, registramos um agradecimento público e solene à Comissão Organizadora Nacional nas pessoas de Guilherme Siqueira e Leonardo Barata.

Por meio deles, estendemos nossa profunda gratidão e saudação a todos os membros da Comissão Nacional de Salvaguarda e da Comissão Local de Caxias pela impecável dedicação, sensibilidade e empenho na realização deste momento histórico: o II Encontro Nacional das Procissões do Fogaréu do Brasil.

Viva a Procissão do Fogaréu! Viva a Cidade Histórica de São Cristóvão!

ENTRE AS PÁGINAS DOS LIVROS E O LUGAR ONDE A HISTÓRIA ACONTECEU: UMA VISITA AO MEMORIAL DA BALAIADA – CAXIAS, MARANHÃO

 

  UMA VISITA AO MEMORIAL DA BALAIADA.   



                                                   Créditos  da foto: José Augusto 


Durante nossa participação no II Encontro Nacional das Procissões do Fogaréu, realizado na cidade de Caxias, no Maranhão, tivemos, nós da comitiva de Sergipe, representada por Allison, Augusto e por mim, Adailton Andrade, a satisfação e a oportunidade de conhecer o Memorial da Balaiada, um importante espaço de preservação da memória histórica maranhense e brasileira.


Como historiador, confesso que visitar aquele lugar despertou em mim uma emoção especial. A Revolta da Balaiada, seus acontecimentos, suas lideranças, seus conflitos e as lutas de homens e mulheres que marcaram aquele período da história do Brasil Imperial fizeram parte de nossos estudos e chegaram até nós, durante muitos anos, por meio das páginas dos livros didáticos. Aprendemos sobre suas causas, seus personagens, suas consequências e sua importância para a compreensão da sociedade brasileira do século XIX. Entretanto, estar em Caxias e ter a oportunidade de conhecer aquele espaço de memória proporcionou uma experiência completamente diferente.

A Revolta da Balaiada no Maranhão (1838–1841) 

A Balaiada foi uma revolta popular que aconteceu entre 1838 e 1841, principalmente na província do Maranhão, durante o Período Regencial do Brasil. Foi um movimento contra a pobreza, as injustiças sociais, a exploração dos trabalhadores e os abusos das autoridades locais. A revolta ocorreu principalmente no Maranhão, espalhando-se também por parte do Piauí, especialmente nas regiões do interior.

Principais causas:

  • Pobreza e desigualdade social.
  • Exploração dos trabalhadores e vaqueiros.
  • Abusos cometidos pelas autoridades locais.
  • Disputas políticas entre grupos da elite maranhense.
  • Insatisfação da população mais pobre com as condições de vida.
O Governo Imperial enviou tropas comandadas pelo coronel Luís Alves de Lima e Silva, que organizou a repressão aos revoltosos. Após intensos combates, o movimento foi derrotado em 1841. Cosme Bento foi capturado e executado em 1842. Luís Alves de Lima e Silva recebeu posteriormente o título de Barão de Caxias. Em resumo: A Balaiada foi uma revolta de homens pobres, vaqueiros, trabalhadores, negros escravizados e quilombolas que lutaram contra a miséria, a exploração, a escravidão e os abusos das autoridades. Foi uma das mais importantes revoltas populares do Brasil durante o Período Regencial.


                   

                                                      Créditos  da foto: José Augusto 

É uma sensação difícil de traduzir em palavras: aquilo que antes habitava nossa imaginação, construído a partir das leituras e dos registros históricos, ganha uma dimensão muito mais próxima quando estamos diante dos lugares que guardam as lembranças daqueles acontecimentos. Os documentos, os objetos, as narrativas e os testemunhos preservados pelo Memorial nos ajudam a compreender que a história não é feita apenas de datas, nomes e acontecimentos registrados nos livros. Ela é construída por pessoas, por suas experiências, suas lutas, seus sofrimentos, suas esperanças e suas transformações sociais.

A Balaiada não foi apenas uma revolta inscrita nos capítulos da história do Maranhão. Foi um movimento marcado por profundas tensões sociais, políticas e econômicas, que envolveu diferentes segmentos da população e deixou marcas na história do Brasil. Conhecer esse passado no próprio território onde os acontecimentos se desenvolveram é uma oportunidade singular de aproximar o conhecimento histórico da memória coletiva.


                                


                                                                                             Créditos  da foto: José Augusto 

Para nós, que trabalhamos e nos dedicamos à preservação da história e da memória, essa visita teve um significado ainda maior. Foi um momento de aprendizado, reflexão e reconhecimento da importância dos memoriais, arquivos e instituições de memória como guardiões do patrimônio histórico e cultural de uma sociedade.

Há uma diferença muito grande entre ler a história nos livros e ter a oportunidade de conhecer de perto os lugares onde ela aconteceu. 


Naquele momento, a história deixou de ser apenas uma narrativa estudada e passou a ser uma experiência vivenciada. Como historiador, saio dessa visita com a convicção de que preservar a memória é também permitir que as novas gerações conheçam, compreendam e reconheçam os caminhos percorridos por aqueles que vieram antes de nós.

Durante nossa participação no II Encontro Nacional das Procissões do Fogaréu, realizado na cidade de Caxias, no Maranhão, tivemos a satisfação e a oportunidade de conhecer o Memorial da Balaiada. A comitiva de Sergipe, representada por Allison, Augusto e por mim, Adailton Andrade, vivenciou um momento especial de aprendizado, reflexão e contato direto com um dos capítulos mais marcantes da história brasileira.

Como historiador, confesso que visitar aquele lugar despertou em mim uma emoção muito especial. A Revolta da Balaiada (1838–1841), seus acontecimentos, suas lideranças, seus conflitos e as lutas de homens e mulheres que marcaram aquele período da história do Brasil Imperial fizeram parte de nossos estudos e chegaram até nós, durante tantos anos, por meio das páginas dos livros didáticos. Aprendemos sobre suas causas, seus personagens, suas consequências e sua importância para a compreensão da sociedade brasileira do século XIX. Entretanto, estar em Caxias e ter a oportunidade de conhecer aquele espaço de memória proporcionou uma experiência completamente diferente. Aquilo que antes conhecíamos pela leitura passou a ganhar outra dimensão diante de nossos olhos.

  

  Créditos  da foto: José Augusto 


Localizado no Morro do Alecrim, em Caxias, o Memorial da Balaiada constitui um importante espaço de preservação, valorização e divulgação da história maranhense e brasileira. Inaugurado em 2004, foi concebido como um ambiente de memória, pesquisa, educação e valorização do patrimônio histórico e cultural. Sua implantação está relacionada aos trabalhos de pesquisa arqueológica e recuperação histórica desenvolvidos na região, especialmente no local onde ocorreram episódios importantes da revolta.

Ao percorrer suas dependências, encontramos referências históricas que nos ajudam a compreender a dimensão daquele movimento social e político ocorrido durante o Período Regencial. Seu acervo reúne objetos, armamentos, peças arqueológicas e documentos que permitem ao visitante aproximar-se do contexto social, político e econômico da época. Entre os personagens que dão significado à narrativa histórica estão Raimundo Gomes, Manuel Francisco dos Anjos Ferreira, conhecido como Balaio, e Negro Cosme, importante liderança quilombola. Suas trajetórias ajudam a revelar a dimensão popular e social da Balaiada e a compreender os diferentes grupos envolvidos naquele movimento.

                


        

    Créditos  da foto: José Augusto 

As referências ao antigo quartel e às ruínas que integram o conjunto histórico também despertam nossa imaginação e nos convidam a refletir sobre os acontecimentos que marcaram aquele território. É uma sensação difícil de traduzir em palavras: aquilo que antes habitava nossa imaginação, construído a partir das leituras e dos registros históricos, ganha uma dimensão muito mais próxima quando estamos diante dos lugares que guardam as lembranças daqueles acontecimentos.

Há uma diferença muito grande entre ler a história nos livros e ter a oportunidade de conhecer de perto os lugares onde ela aconteceu. É como se as páginas dos livros ganhassem vida diante de nós. Os documentos, os objetos e as narrativas preservadas pelo Memorial nos ajudam a compreender que a história não é feita apenas de datas, nomes e acontecimentos registrados pela historiografia. Ela é construída por pessoas, por suas experiências, suas lutas, seus sofrimentos, suas esperanças e suas transformações sociais.

O Memorial da Balaiada vai além de um espaço expositivo. Sua biblioteca, seu centro de documentação e seus ambientes destinados às atividades educativas e culturais demonstram como a preservação da memória pode estabelecer uma ligação entre patrimônio, pesquisa histórica e sociedade. Trata-se de uma instituição que permite ao visitante conhecer, compreender e valorizar os acontecimentos que constituem a identidade histórica de um povo.



                                    Créditos  da foto: José Augusto 

Para nós, que dedicamos parte de nossa trajetória à pesquisa, à história e à preservação documental, essa visita também proporcionou uma reflexão institucional. A experiência do Memorial constitui uma referência importante para pensar novas possibilidades de valorização da memória nos arquivos públicos municipais. Conhecer iniciativas dessa natureza amplia nossos horizontes e fortalece a convicção de que os arquivos não devem ser compreendidos apenas como lugares de guarda de documentos, mas também como espaços de conhecimento, cidadania, pesquisa, educação patrimonial e construção da memória coletiva.



   


Nesse sentido, a experiência vivenciada em Caxias nos leva a olhar ainda mais atentamente para São Cristóvão, nossa querida Cidade Mãe de Sergipe, detentora de um patrimônio histórico, cultural e documental de grande relevância para a história sergipana e brasileira. Assim como Caxias preserva, por meio do Memorial da Balaiada, a memória de um dos movimentos mais significativos de sua trajetória, São Cristóvão também possui uma história que merece ser continuamente pesquisada, valorizada e compartilhada com as novas gerações.

Preservar documentos, valorizar personagens históricos e criar espaços de diálogo entre a sociedade e seu passado são iniciativas fundamentais para fortalecer a identidade cultural, garantir o acesso à informação e transmitir às futuras gerações o conhecimento sobre sua própria história.

Ao final da visita, ficou a certeza de que aquele momento havia sido muito mais do que um passeio cultural durante nossa passagem pelo Maranhão. Foi uma oportunidade de aprendizado, reflexão e reencontro com uma história que, até então, conhecíamos principalmente pelas páginas dos livros. Estar naquele lugar, observar os registros e compreender a importância daquele patrimônio nos fez perceber, mais uma vez, o verdadeiro sentido do nosso compromisso com a história e a memória.

Afinal, participar de um encontro dedicado à preservação de uma tradição cultural como a Procissão do Fogaréu e, ao mesmo tempo, conhecer um espaço tão significativo da história brasileira tornou nossa passagem por Caxias ainda mais enriquecedora.

   
          
                                                                                    Créditos  da foto: José Augusto 

Porque há histórias que aprendemos a conhecer nos livros, mas existem momentos em que a vida nos oferece a oportunidade de caminhar pelos lugares onde elas aconteceram. E, quando isso acontece, a história deixa de ser apenas uma leitura: torna-se uma experiência, uma emoção e uma memória que levaremos conosco.

Foi, sem dúvida, um dos momentos especiais de nossa passagem por Caxias. Afinal, participar de um encontro dedicado à preservação de uma tradição cultural como a Procissão do Fogaréu e, ao mesmo tempo, conhecer um espaço tão significativo da história brasileira tornou essa viagem ainda mais enriquecedora.


    

Porque a história não está somente nos livros: ela também está nos lugares, nos documentos, nas lembranças e na memória viva de um povo.


 


 



domingo, 15 de março de 2026

JOÃO BEBE ÁGUA - O homem para além da lenda!


João Bebe Água e a Resistência que Marcou Sergipe na Mudança da Capital

 

Adailton Andrade – Pesquisador e Historiador

 




A história de Sergipe é atravessada por um dos episódios mais dramáticos e divisores de águas do século XIX: a transferência da capital da província de São Cristóvão para o então pequeno e pantanoso povoado de Santo Antônio de Aracaju, oficializada em 17 de março de 1855. No epicentro deste turbilhão, entre o choque da modernidade planeada e a dor de uma tradição ferida, surge a figura de João Nepomuceno Borges, que a posteridade imortalizou sob a alcunha de João Bebe Água. Longe de ser apenas o personagem folclórico que a memória popular muitas vezes simplifica, João Bebe Água foi o rosto, a voz e a alma de uma cidade que se recusava a aceitar o declínio imposto pelos interesses económicos e políticos da época.



  

João Nepomuceno Borges não era um homem comum de pouca instrução ou relevância social. Registos históricos indicam que ele nasceu em São Cristóvão por volta de 1818 ou 1822, oriundo de uma família com posses e influência local, sendo filho do Capitão Francisco Borges da Cruz e de Maria Rosa de Lima. Ao contrário da imagem de um simples "bebedor de cachaça" — rótulo que a historiografia oficial por vezes usou para deslegitimar a sua luta —, os documentos de arquivo revelam um cidadão com uma vida pública intensa e respeitável. João foi comerciante, Presidente da Câmara Municipal de São Cristóvão, escrivão de importantes irmandades religiosas, como a de Nossa Senhora do Amparo, e suplente de subdelegado. A sua dedicação à causa social foi tal que chegou a ser elogiado oficialmente pelo governo provincial pela sua atuação voluntária no tratamento de doentes durante a epidemia de cólera que assolou a região em 1863.


  

Contudo, foi o seu fervoroso e quase místico amor por São Cristóvão que o colocou definitivamente nos anais da história sergipana. Quando o presidente da província, Inácio Joaquim Barbosa, decretou a mudança da sede administrativa para as margens do rio Sergipe, visando facilitar o escoamento da produção açucareira através de um porto mais eficiente, a elite e o povo da quarta cidade mais antiga do Brasil sentiram o golpe como uma traição. Para João Bebe Água, a transferência não era uma decisão logística inevitável, mas uma afronta à dignidade de um povo e de um património secular. Ele tornou-se o principal opositor dessa transição, canalizando o sentimento de humilhação e o receio do esvaziamento económico que a perda do estatuto de capital traria para São Cristóvão.


  


A resistência de João Bebe Água fundiu realidade e lenda, criando uma narrativa que atravessou gerações. O episódio mais emblemático do seu protesto envolve a famosa "promessa dos fogos". Conta a tradição oral que João, inconformado com a ascensão de Aracaju, estocou uma quantidade monumental de fogos de artifício na sua residência, jurando solenemente que aqueles artefactos jamais seriam acesos enquanto a capital não retornasse ao seu lugar de direito. Esse silêncio pirotécnico tornou-se o símbolo máximo da resistência sancristovense: uma espera paciente e obstinada por uma reparação histórica que ele, em vida, jamais veria concretizada.


   

João Bebe Água faleceu em São Cristóvão entre 1892 e 1894, numa época em que Aracaju já se consolidava como o novo centro de poder. No entanto, o seu legado de resistência não se extinguiu com a sua morte. A sua figura personificava o luto de uma cidade que via os seus edifícios públicos fecharem e a sua influência minguar. Ele não era apenas um homem apegado ao passado, mas um líder que questionava a legitimidade de um progresso que ignorava a identidade cultural e a história de uma comunidade inteira.

 

O reconhecimento da sua importância histórica e a necessária reparação simbólica ocorreriam apenas em 1972. Durante a realização do I Festival de Arte de São Cristóvão (FASC), o Governo de Sergipe promoveu um ato de grande carga emocional: transferiu simbolicamente a capital de volta para São Cristóvão por alguns dias. Naquela ocasião, os céus da cidade finalmente foram iluminados por uma grandiosa queima de fogos, cumprindo, de forma póstuma e lúdica, o desejo que o velho capitão guardara por décadas.

 

Atualmente, o trabalho de resgate historiográfico busca retirar João Bebe Água do isolamento do anedotário popular para devolvê-lo ao seu lugar como um intelectual orgânico e um defensor intransigente da memória sergipana. A sua trajetória serve como um lembrete permanente de que o desenvolvimento de um estado não deve ser construído sobre o esquecimento das suas fundações. João Bebe Água permanece vivo na memória coletiva, não como um vencido pela história, mas como o guardião eterno da dignidade de São Cristóvão e um exemplo de que a resistência, mesmo quando manifestada num silêncio carregado de pólvora, tem o poder de ecoar através dos séculos.












 



 



Áudio  muito  importante  para a compreenção  da pesquisa histórica