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domingo, 2 de dezembro de 2012

LUIZ GARCIA



O CENTENÁRIO DE LUIZ GARCIA
 
 
 Luis Antonio Barreto
 
 
A biografia centenária de Luiz Garcia é rica, tanto no jornalismo, como na advocacia, como na política...

A biografia centenária de Luiz Garcia é rica, tanto no jornalismo, como na advocacia, como na política. O Correio de Aracaju foi sua grande tribuna diária, com artigos de fundo, emitindo opiniões que representavam o grupamento político ao qual pertencia, ao lado de Seixas Dória, Carvalho Deda, sob a liderança carismática de Leandro Maciel. Seu cunhado Junot Silveira e seu filho Gilton Garcia deram, também, contribuição significativa ao jornal udenista.
 
No exercício da advocacia, precedido de experiência como Promotor, atuou em Sergipe e no Rio de Janeiro, onde também era advogado o seu irmão Carlos Garcia, no grande e tradicional Escritório do Dr. Hernani Cidade. Advogado no Inventário de D. Adélia Franco, e de outras figuras importantes de Sergipe, Luiz Garcia conciliou as atividades forenses com os mandatos políticos, desde o de Deputado Estadual Constituinte em 1935, quando da elaboração da Constituição do Estado e da eleição, indireta, do Governador Constitucional Eronídes Ferreira de Carvalho.
Na política ingressou aos 24 anos, participando da fundação do primeiro PSD – Partido Social Democrático, juntamente com Leandro Maciel que seria, na UDN – União Democrática Nacional, seu líder e parceiro de muitas campanhas. Depois da passagem pela Assembléia, aguardou que a redemocratização do Brasil reabrisse o espaço eleitoral, candidatando-se a Governador, enfrentando a José Rollemberg Leite, dos quadros do PSD – Partido Social Democrático, chefiado por Leite Neto, coligado com o PR – Partido Republicano, que tinha como principais líderes Júlio Leite e Armando Rollemberg. 

Luiz Garcia perdeu a eleição para o Governo do Estado, mas adiante foi eleito Deputado Federal e substituiu a Leandro Maciel, em 1958, como Governador. A renúncia em 1962, para concorrer ao Senado, fez declinar a carreira política, embora durante o período dos Governos dos militares, quando ele optou por filiar-se, com Leandro Maciel, a ARENA – Aliança Renovadora Nacional, elegendo-se Deputado Federal mais duas vezes e tentando, sem sucesso, na eleição de 1978. Sua participação no plenário da Câmara dos Deputados consagrou sua oratória, suas posições, sua conduta, merecendo elogios de correligionários e adversários, como são testemunhos os Anais daquela Casa.

Afastado da política, deixou aflorar o intelectual, nas sessões da Academia Sergipana de Letras, ilustrando o sodalício com sua palavra fácil, suas observações produzidas pela longa experiência, no Estado e fora dele, sendo, por isto mesmo, uma das mais respeitadas e admiradas presenças nas reuniões das segundas feiras, presididas pelo irmão e grande colaborador do seu Governo Antonio Garcia Filho. 

Morrendo antes de completar  91 anos, Luiz Garcia deixou em Sergipe um sentimento de perda, que ainda repercute. Ele revive, contudo, evocado pelos sergipanos que conheceram as suas qualidades e os seus trabalhos, como é lembrado pelo acervo de obras e de providências que deram ao seu período de Governo uma qualidade como poucas, no curso da história republicana. O pioneirismo de algumas ações jamais foram superadas, mas, ao contrário, continuam servindo ao Estado e ao povo sergipanos, como o IPES, o BANESE, a ENERGIPE (hoje ENERGISA), O Hotel Pálace de Aracaju, a Estação de Passageiros do Aeroporto Santa Maria, o Centro de Reabilitação Ninota Garcia, a Faculdade de Medicina, a Estação Rodoviária, que leva o seu nome, dentre outras e serviços que modernizaram Aracaju e que formam um legado insofismável às administrações.

                                                             

ARACAJU


Luis Antonio Barreto



Em Torno do Topônimo Aracaju
Gabriel Soares de Souza, no seu monumental Tratado descritivo do Brasil em 1587, refere-se assim ao Morro do Urubu, que era denominado, nas Cartas náuticas...
 
(Foto: Arivaldo Azevedo Santana/Fotos Antigas Portal Infonet)
Gabriel Soares de Souza, no seu monumental Tratado descritivo do Brasil em 1587, refere-se assim ao Morro do Urubu, que era denominado, nas Cartas náuticas, de Morro do Aracaju: “A este monte chamam os índios Manhana, que quer dizer entre eles “espia”, por se ver de todas as partes de muito longe. O termo Manhana, que existe na língua hebraica, tem sido traduzido como “atalaia”, “vigia,” o que é semelhante ao “espia” dos Tupinambás. Isto remete a outros termos indígenas, que parecem descender de velhos idiomas.

Na língua Tupi, ou Neengatu ( língua geral), a mais falada na costa brasileira quando dos descobrimentos, sobreviveram vários prefixos e muitas palavras que guardam semelhança com línguas cultas de outros tempos, como o Sânscrito e  o Grego. O prefixo ARA, por exemplo, tem a mesma etimologia primária em Tupi e em Sãnscrito, significando Dia, Tempo, Mundo, enquanto ARÁ, ORÓ, do Tupi, quer dizer Colina no idioma grego, segundo o professor Adaucto Fernandes, autor de A Gramática Tupi e de Povos Indígenas do Brasil, considerado um dos mais competentes estudiosos das línguas indígenas do Brasil.


Sobrevive em Sergipe o topônimo ARAUÁ, que designa município do sul do Estado. Antonio Houaiss no seu Dicionário da língua Portuguesa (2001) define os arauás como indígena pertencente a qualquer dos grupos arauás; grupos indígenas cujas línguas pertencem à família lingüística arauá; grupo indígena, hoje considerado extinto. Também grafado ARAWÁ. Nos velhos dicionários são citados, também, os índios ARACAJUS. Tais casos, de recorrência à línguas mortas, chamam a atenção para a falta de uma regra etimológica capaz de sanar todas as dúvidas que ainda persistem entre os pesquisadores e historiadores sergipanos.
Desconsiderando a relação ampla e dinâmica entre as nações indígenas e a toponímia, são conservados conceitos lúdicos, cristalizados pelo uso,como é o caso de ARACAJU como “Cajueiro dos Papagaios,”espécie de tradução oficial e única, que despreza tudo o mais que os estudos produziram, a partir da obra de Adaucto Fernandes, autor nascido e criado na região amazônica, respeitado pelo domínio de línguas indígenas do norte do Brasil. É certo que dois autores, um da Bahia – Teodoro Sampaio – e outro de Sergipe – Armindo Guaraná – deixaram contribuições merecedoras do aplauso público, no entanto são muitas as lacunas e diversas opiniões forçadas, sem amparo da pesquisa no universo das línguas e dialetos, em grande número, incluindo a ausência de comparações vocabulares com velhos idiomas, descartados.
O que ocorre com Aracaju não é coisa única. O vocábulo SERGIPE,que dá nome ao território situado entre os rios São Francisco e Real, passa pela mesma crítica ao ser identificado, etimologicamente, como “rio dos siris,” pelo tupi siri-i-pe.  Bastaria perguntar se a Ilha, na região da Baia da Guanabara, onde estiveram os franceses no século XVI, antes da catequese de 1575 e da conquista de 1590, também poderia ter recebido o nome de Sergipe por ser “rio dos siris.” Na Bahia, onde foi montado o Engenho de Mem de Sá, mais tarde do Conde de Linhares, o rio Sergipe também seria “rio dos siris?” Por que, então, o rio Sergipe que traz as suas e outras águas para jogar no mar, em Aracaju, é o “rio dos siris?
Assim como a letra, quilométrica e pouco poética, do Hino de Sergipe tem sido questionada, circulando algumas idéias de revisão textual, para tornar mais próximo do povo o símbolo que marca, desde 1836, a emancipação política de Sergipe, cogitou-se, também, reexaminar, pela ótica da heráldica, a Bandeira de Sergipe, pano simbólico que desde as façanhas comerciais de Bastos Coelho, vendendo sal sergipano ao Brasil, tremula como representação da unidade territorial, representada pelas estrelas, aludindo a barras dos rios que banham as terras sergipanas. O assunto está em aberto, merecendo exame claro e definitivo, corrigindo o que por erro ou por outro motivo chegou disforme, impreciso, ao conhecimento das novas gerações de sergipanos.
São Cristóvão, tornada Monumento Patrimônio da Humanidade recentemente, deve rever seus conceitos, para bem fazer as honras da posição conquistadas junto a UNESCO. Não foi, certamente, pela divulgação da velha capital de Sergipe como sendo a “quarta cidade mais antiga do Brasil”que São Cristóvão galgou tão importante e seleto lugar. São Cristóvão tem, de verdade, méritos diversos e únicos a uma cidade brasileira, fundada sob o domínio espanhol, que agenciou três belos Largos, postos à disposição dos olhos mais exigentes. Hoje, graças aos esforços locais de Tiago Fragata, e da presença de Aglaé Fontes como Secretária Municipal de Cultura, São Cristóvão fará, com certeza, o esforço para conservar o título conquistado

terça-feira, 13 de novembro de 2012

JOÃO SILVA FRANCO

O SAPATEIRO

  Luíz Antônio Barreto


Um poeta e seu ofício - João Silva Franco, o Sapateiro
João Silva Franco trabalhou duro para sobreviver. Negro, quase dois metros de altura, teve a vida marcada pelo sobrenome postiço



Laranjeiras produziu, como útero cultural de Sergipe, uma galeria de mulheres e homens que cobertos de glória deixaram seus nomes, estandartizados na memória social daquela que já foi a Atenas Sergipense, e, mais recentemente, Um museu a céu aberto. Assim como os nascidos em Simão Dias são denominados Capa bode, os de Lagarto Papa Jaca, os de Porto da Folha Buraqueiros, quem nasce em Laranjeiras carrega o “gentílico” de Caga Palácio. Alguns dos mais consagrados vultos daquela terra nasceram em outros locais de Sergipe, como é o caso da professora Quintina Diniz, que nasceu em Lagarto, e de João Silva Franco, nascido em Riachuelo. No entanto, a professora e o poeta foram legítimos laranjeirenses, na identidade com a terra e com o espírito dominante no casario assobradado que simbolizou, no século XIX, a riqueza açucareira de toda uma região banhada pelas águas do rio Cotinguiba.


João Silva Franco trabalhou duro para sobreviver. Negro, quase dois metros de altura, teve a vida marcada pelo sobrenome postiço. Profissionalizou-se como sapateiro, remendando o couro, trocando o salto, pondo meia sola nos sapatos da população, independentemente do poder aquisitivo de cada pessoa. Quem podia, é claro, comprava sapato novo, em Aracaju, ou em outra qualquer cidade do País. Mas, quem tinha dinheiro curto, e queria fazer bonito na festa de São Benedito, que é colada na festa de Santos Reis, encerrando o ciclo natalino, entregava seu sapato velho a João Sapateiro, estabelecido nas cercanias do Mercado Municipal. Discreto, mas de boa conversa, o sapateiro exibia na sua oficina de trabalho, folhas de papel pautado, repletas de palavras escritas em letras de forma, fixadas nas paredes e nos poucos móveis do seu canto laboral. Eram trovas, pequenos e longos poemas, que surpreendiam a freguesia. João Silva Franco passou a ser conhecido como João Sapateiro, e reconhecido como o sapateiro poeta.

O pequeno espaço de trabalho de João sapateiro foi, em Laranjeiras, um ponto de encontro, um daqueles lugares que reúne as pessoas para uma conversa animada. Farmácia e barbearia, no interior, terminam sendo locais atrativos, onde são formados grupos para as conversas, passando em revista os assuntos dominantes da cidade. Em Laranjeiras o Cartório de Antonio Gomes, a alfaitaria de Graquinho, e a oficina de João Silva Franco, ao lado da farmácia de Antonio Rollemberg, se constituíram em locais especiais, que assitiram a decadência econômica e cultural da cidade, sentindo o êxodo dos mais  novos, que saíam para estudar, e o desaparecimento dos mais velhos, arrancados da vida. Quando morreu Bilina, Laranjeiras chorou e o toque do Patrão da Taeira silenciou, até que Maria de Lourdes, também já morta, foi buscar o ritmo, as cores e a coreografia para continuar cantando: “Meu São Benedito, eu não quero mais c’roa, quero uma toalha, enfeitada em Lisboa.” Quando morreu Alexandre, os fiéis do culto negro tomaram nos braços o seu caixão e desfilaram pelas ruas laranjeirenses, elevando e baixando a urna funerária, num gesto simbólico da religiosidade dos afrodescendentes. 

João Silva Franco viveu quase 90 anos, antes de morrer, placidamente, quinta-feira, dia 9 de setembro de 2008. Sua poesia, tal qual sua arte de consertar sapatos, é um patrimônio de Laranjeiras, um rico exemplo de criação, que nada fica devendo aos vates nascidos naqueles domínios, e que encantaram auditórios, animaram reuniões, motivaram saraus, e deixaram que a alma laranjeirense tocasse as palavras, dispondo-as com a beleza que é matéria prima própria dos poetas. João Ribeiro, Bitencourt Sampaio, entre os mais velhos, Edith Vinhas, entre os contemporâneos, foram artistas da lira, reinventando paisagens e sonhos, para ornar de sutilezas a vida, sem sempre bela, do cotidiano de uma cidade desigual.


João Silva Franco era um lírico, mas não cantava apenas o amor. Suas trovas estavam afiadas como navalhas, cortando com cada verso o tecido da realidade. Não calava diante das injustiças, mesmo quando a doçura de seu jeito simples e bom acolhia a todos. Numa de suas quadras, publicada na primeira antologia dos seus versos (Aracaju: Nova Editora de Sergipe, 1965), João Sapateiro corrigia a admoestação de São Paulo, que na segunda Carta aos Tessalonicenses exortava ao trabalho, como única forma de sobrevivência. O poeta, tomado de justa ira, tingiu as linhas do papel pautado com letras  grandes, todas maiúsculas  letras de imprensa, que diziam:
         “QUEM NÃO TRABALHA NÃO COME
         É CONVERSA MUITO FALHA,
         PORQUE SÓ VEMOS COM FOME
         O POVO QUE MAIS TRABALHA.”


Ele mesmo, trabalhador e poeta, glória entre os simples, da grande e rica Laranjeiras, fez do pé de cabra e do martelo, da faca afiada e do couro, um ofício fino, para embelezar os pés dos seus contemporâneos, como fez da palavra uma arma, manejada para criar beleza, com a coragem dos bons e dos justos. Os sapatos, gastos, se perdem, mas a poesia continua servida, nos livros que publicou.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

O Político José Rollemberg Leite (1912-1996)





O Político José Rollemberg Leite (1912-1996)


Ibarê Dantas



Quando pesquisava sobre os governos de José Rollemberg Leite para escrever meus livros, dois aspectos de certo modo contraditórios me chamaram atenção na sua trajetória política.  Em primeiro lugar, a sorte, ou para usar um termo de maior densidade, criado por Maquiavel, a fortuna. O segundo aspecto refere-se às dificuldades que atravessou, sobretudo em sua primeira gestão (1947-1951).
Originário de família tradicional de Sergipe, bisneto do Barão de Estância, embora seu pai, o médico Sílvio Cezar Leite, não tivesse vivência partidária, a família de sua mãe, Lourença Rolemberg Leite, tinha longa militância política.
Quanto ao filho, não sei quando revelou ambições políticas. Sabe-se que, após graduar-se em Engenharia de Minas e Civil na Escola de Ouro Preto (MG), começou a lecionar, e seu irmão, Francisco Leite Neto, que ocupava a Secretaria Geral na segunda interventoria de Augusto Maynard Gomes (1943-1945), concorreu para fazê-lo diretor do Departamento de Educação e Obras.
Como ocorreria no decorrer de sua vida, o novo diretor desempenhou suas funções com seriedade. Nos estertores do Estado Novo, Maynard promoveu a criação do PSD, ao qual José Leite, membro do secretariado, filiou-se. Pouco tempo depois, Vargas e Maynard foram depostos e, na eleição para a Constituinte de 1946, os pessedistas ficaram aquém da UDN e do PR que, juntos, elegeram os dois senadores e três deputados federais.



No pleito seguinte (1947) para governador, o PSD uniu-se ao PR de Júlio Leite, mas como este não gostava do sobrinho Leite Neto, a alternativa foi indicar José Leite, um jovem senhor sem arestas, sóbrio, contido, discreto, que estaria por revelar-se como Executivo.
A UDN lançou o advogado Luiz Garcia, que dirigia o Correio de Aracaju, e aliou-se ao Partido Comunista na fase de maior expansão de sua história. A Liga Eleitoral Católica (LEC) entrou na campanha anticomunista exaltada, e José Leite, um homem circunspecto, avesso a confusão, com discurso de gente acanhada, viu-se no centro de uma celeuma medonha de debates e discussões acaloradas. Vitorioso, tratou da montagem do secretariado possível dentro das exigências da aliança.  Empossado em fins de março de 1947, deparou-se com uma situação difícil. Finanças limitadas, oposição forte e aguerrida, num quadro nacional de embates ideológicos que se acentuaram quando o TSE cassou o mandato dos parlamentares do PCB. Em várias cidades do país, desencadearam-se manifestações dos trabalhadores. O presidente da República marechal Dutra, alinhado à política da Guerra Fria, enviava boletins aos governos estaduais, ordenando rigor contra os comunistas que, em Aracaju, promoviam comícios. Num deles, a cavalaria da polícia investiu contra a massa em frente ao cinema Rio Branco e um tiro matou o operário Anísio Dário. Os comunistas ganharam um mártir e o governo, um problema.



O Departamento de Segurança Pública divulgou nota atribuindo o fato aos próprios camaradas, aumentando a indignação. A repressão prosseguiu, apreendendo jornais e detendo trabalhadores ativistas. Armando Domingues, deputado estadual eleito pelo PCB, também foi cassado, enquanto as críticas ao governo proliferavam. No Senado, Walter Franco (UDN) pediu CPI. Na Câmara dos Deputados, Leandro Maciel fazia discursos duros. Na Assembleia, representantes da UDN, do PTB e da Esquerda Democrática fustigavam os situacionistas. Nas ruas, os sindicatos e outras associações protestavam. Enquanto isso, o funcionalismo reclamava aumento, que foi aprovado pela Assembleia, que podia criar despesas. O governo vetou-o, aumentando seu desgaste. Os desembargadores se incorporam aos insatisfeitos. No interior, os delegados abusavam da autoridade, exasperando os adversários e dando margem a frequentes denúncias na imprensa. O Correio de Aracaju da UDN, a Gazeta Socialista de Orlando Dantas e a Folha Trabalhista de Francisco Macedo veiculavam denúncias e criticavam a administração. No Rio de Janeiro, Joel Silveira no Diário de Notícias vez por outra divulgava seus petardos contra a gestão dos Leite. Os próprios correligionários, como Manuel Teles (PSD) em Itabaiana, abusavam do contrabando deixando os governistas incomodados. Os problemas de relacionamento entre os secretários do PR X PSD se amiudavam.
Nesse clima de críticas e de questões adversas, o governador resisitia, exercitando a tolerância para não sucumbir às pressões dos grupos de interesse. No auge da polêmica sobre a morte de Anísio Dário, a divulgação do convênio com o governo federal, facultando a Sergipe um projeto piloto na área da educação, deu à gestão de José Leite um oportuno alento. Ao final, 218 Escolas Rurais, sete Grupos e duas Escolas Normais foram construídas (Cf. Mensagem de 1951). Nesse embalo, o governo criou as duas primeiras faculdades: Economia e Química, projetando seus feitos no campo de instrução como principal marca de sua gestão. Ademais, a triplicação da força da energia elétrica, a melhoria do abastecimento de água e a ampliação da rede rodoviária, entre outras realizações, dentro de um estilo de zelo pela coisa pública, ajudaram a fortalecer o legado de sua administração.
Ao fim de seu mandato, o mano Leite Neto tentou controlar o processo sucessório, mas as reações dos próceres do PR geraram situações embaraçosas, como foi a rejeição do honrado Gervásio Prata. Apesar disso, a coligação elegeu seu sucessor e José Leite voltou ao magistério e a exercer sua profissão de engenheiro ao lado de seu amigo Fernando Porto.
Na sucessão do governo Leandro Maciel, em 1958, quando a UDN imperava, a coalizão PSD-PR, sem muitas opções de quadros, lançou José Leite para enfrentar Luiz Garcia (UDN) que dessa vez venceu. Mais tarde, em 1962, Leite Neto foi eleito senador, entretanto, faleceu em 1964. Como José Leite era o suplente, o homem de sorte substituiu-o por cinco anos (1965-1970) num dos mandatos mais tranquilos e cobiçados. Todavia, sua atuação ocorria numa fase conturbada do Estado Autoritário, pontuada de momentos incômodos, num tempo em que as reações dos partidos e de vários setores da sociedade exacerbavam-se, terminando por levar o general presidente a editar o AI-5 e fechar o Congresso, inaugurando um novo ciclo repressivo. Antes desse desfecho, José R. Leite, incorporado aos quadros da ARENA, na primeira escolha para governador indireto, perdeu em convenção por um voto para Lourival Batista, mas foi eleito presidente do Diretório daquela agremiação.
Nos idos de 1974, o senador Petrônio Portela veio a Sergipe ouvir os pretendentes a substituir o governo Paulo Barreto de Menezes. Numa longa e informativa entrevista que me concedeu vinte anos depois, José Leite me contou o episódio com muita graça e um certo ar de satisfação.
Depois de ouvidos individualmente onze aspirantes ao cargo, Petrônio foi embora e ficou acertado que o anúncio do escolhido seria comunicado ao presidente da ARENA. Em face disso, a residência de José Leite permaneceu ocupada dias após dias por ansiosos pré-candidatos a incomodar a família com seus vozerios e especulações até altas horas da noite. Um mês depois, o dono da casa, que, com seu aparente desprendimento, não constava da relação dos onze, foi o escolhido. A aura de homem de fortuna afirmou-se. Sorte também para Sergipe.
Com sua autoridade moral e grande respeitabilidade política, no período inicial da abertura do regime sinalizou com firmeza pela renovação administrativa. Arejou a Secretaria da Justiça e a direção do Banco do Estado, entre outros setores. Diante dos órgãos de segurança, resistiu às suas imposições, nomeando nomes vetados e mantendo funcionários tidos como subversivos. Mas nem tudo foi sucesso. Dentro de uma estratégia nacional, os generais promoveram a Operação Cajueiro em 1976, quando afastaram os oficiais do 28º BC e criaram lá dentro um enclave coercitivo, prendendo e torturando cerca de 30 cidadãos, com o objetivo de debilitar o PCB. Para o governador, que se sentiu impotente para intervir, foi um grande constrangimento.
Não obstante esse fato lamentável, José Leite, com experiência e visão de conjunto da administração estadual, empenhou-se em atender os objetivos técnicos voltados para o desenvolvimento do Estado, sem desprezar as demandas políticas. Visando montar uma infraestrutura básica para uma política industrial, pelo menos a médio prazo, criou vários órgãos públicos vitais e melhorou os serviços essenciais (água, luz, educação, transporte e habitação) dentro do processo de modernização do setor público. Sem estardalhaço, iniciou as obras da adutora do São Francisco e tomou decisões marcantes sobre a localização do porto.  Dirigiu a coisa pública com senso de proporcionalidade, temperando os pleitos dos técnicos com as pressões dos correligionários, sem a ilusão da tecnocracia e a instrumentalização das secretarias pelos políticos.
Depois, ainda serviu a um dos governos de João Alves. Contudo, o grande momento de sua vida política de José Rollemberg Leite plasmou-se na segunda gestão (1975-1979), quando, dentro das circunstâncias da época, realizou uma das mais profícuas administrações do século XX nas terras de Sergipe.
Enfim, sua fortuna favorecia a chegada aos cargos, mas não dispensava dificuldades, que eram enfrentadas com suas virtudes sintonizadas com os valores da sociedade, motivo pelo qual terminou seus dias reconhecido como homem público realizador e probo.


sábado, 18 de agosto de 2012



100 ANOS DE JORGE AMADO


Estive  pesquisando  bem de perto esta história  !

fonte:
http://www.releituras.com/jorgeamado_bio.asp




Filho de João Amado de Faria e de D. Eulália Leal, Jorge Amado de Faria nasceu no dia 10 de agosto de 1912, na fazenda Auricídia, em Ferradas, distrito de Itabuna - Bahia. O casal teve mais três filhos: Jofre (1915), Joelson (1920) e James (1922).

Com apenas dez meses, vê seu pai ser ferido numa tocaia dentro de sua própria fazenda. No ano seguinte uma epidemia de varíola obriga a família a deixar a fazenda e se estabelecer em Ilhéus. Em 1917 a família muda-se para a Fazenda Taranga, em Itajuípe, onde seu pai volta à lida na lavoura de cacau.
Em 1918, já alfabetizado por sua mãe, Jorge retorna a Ilhéus e passa a freqüentar a escola de D. Guilhermina, professora que não hesitava usar a palmatória e impor outros castigos a seus alunos. No ano de 1922 cria um jornalzinho, "A Luneta", que é distribuído para vizinhos e parentes. Nessa época vai estudar em Salvador, em regime de internato, no Colégio Antonio Vieira, de padres jesuítas.

A bela redação que apresentou ao padre Luiz Gonzaga Cabral, com o título de "O Mar", lhe rende elogios e faz com que o religioso passe a lhe emprestar livros de autores portugueses e de outras partes do mundo. Dois anos depois, seu pai vai levá-lo até o colégio após as férias. Despedem-se e Jorge, ao invés de entrar nele, foge. Viaja por dois meses até chegar à casa de seu avô paterno, José Amado, em Itaporanga, no Sergipe. A pedido de seu pai, seu tio Álvaro o leva de volta para a fazenda em Itajuípe. 
É matriculado no Ginásio Ipiranga, novamente como interno. Conhece Adonias Filho e dirige o jornal do grêmio da escola, "A Pátria".  Pouco tempo depois funda "A Folha", que fazia oposição ao primeiro. No ano de 1927, passa para o regime de externato e vai morar num casarão no Pelourinho. Emprega-se como repórter policial no "Diário da Bahia". Pouco depois vai para o jornal "O Imparcial". Uma poesia de sua autoria, "Poema ou prosa", é publicada na revista "A Luva". Conhece o pai-de-santo Procópio, que o nomeará ogã (protetor), o primeiro de seus muitos títulos no candomblé.



Reúnem-se em torno do experimentado jornalista e poeta Pinheiro da Veiga os integrantes da Academia dos Rebeldes, grupo literário do qual, além de Jorge, faziam parte Clóvis Amorim, Guilherme Dias Gomes, João Cordeiro, Alves Ribeiro, Edison Carneiro, Aydano do Couto Ferraz, Emanuel Assemany, Sosígenes Costa e Walter da Silveira. A Academia fazia oposição ao grupo Arco & Flexa e pregava, no dizer de Jorge Amado, "uma arte moderna sem ser modernista". Os trabalhos de seus integrantes são publicados nas revistas "Meridiano" e "O Momento", ambas fundadas por eles.
Em 1929, começa a trabalhar em “O Jornal” onde publica, sob o pseudônimo de Y. Karl, a novela "Lenita", escrita em parceria com Dias da Costa e Edison Carneiro, que assinavam como Glauter Duval e Juan Pablo.
No ano seguinte transfere-se para o Rio de Janeiro para estudar. Conhece Vinicius de Moraes, Otávio de Faria e outros nomes importantes da literatura. "Lenita" é editada em livro por A. Coelho Branco Filho, do Rio de Janeiro.
Aprovado, entre os primeiros colocados, na Faculdade de Direito da Universidade do Rio de Janeiro, em 1931, Jorge vê publicado pela  Editora Schmidt seu primeiro romance, "O país do carnaval", com prefácio de Augusto Frederico Schmidt e tiragem de mil exemplares. O livro recebe elogios dos críticos e torna-se um sucesso de público.
No ano de 1932, muda-se para um apartamento em Ipanema com o poeta Raul Bopp. Conhece José Américo de Almeida, Amando Fontes, Rachel de Queiroz (através de quem se aproxima dos comunistas) e Gilberto Freyre. Sai a segunda edição de "O país do carnaval", desta vez com tiragem de dois mil exemplares. Aconselhado por Otávio de Faria e Gastão Cruls, desiste de publicar o romance "Rui Barbosa nº. 2"; para eles, o livro não passava de uma cópia de "O país do carnaval". Viaja para Pirangi, na Bahia; impressionado com a vida dos trabalhadores da região, começa a escrever "Cacau".


A Ariel Editora, do Rio, em 1933, publica "Cacau", com tiragem de dois mil exemplares e capa e ilustrações de Santa Rosa. O livro esgota-se em um mês; a segunda edição sai com três mil exemplares. Entre a primeira e a segunda edição de Cacau, Jorge tem acesso, através de José Américo de Almeida, aos originais de "Caetés", romance de Graciliano Ramos. Empolgado com o talento do escritor alagoano, viaja para Maceió só para conhecê-lo, iniciando uma amizade que duraria até a morte de Graciliano. Conhece também José Lins do Rego, Aurélio Buarque de Holanda e Jorge de Lima. Torna-se redator­chefe da revista "Rio Magazine". Casa-se em dezembro, em Estância, Sergipe, com Matilde Garcia Rosa. Juntos, eles lançam, pela Schmidt, o livro infantil Descoberta do mundo.
Em 1934, publica — também pela Ariel — o romance "Suor". Trabalha na Livraria José Olympio Editora, do Rio de janeiro, primeiro escrevendo releases e depois na parte editorial propriamente dita; tendo  influenciado na publicação de "O conde e o passarinho", primeiro livro de Rubem Braga, e no lançamento de autores latino-americanos como o uruguaio Enrique Amorim, o equatoriano Jorge Icaza, o peruano Ciro Alegría e o venezuelano Rómulo Gallegos (de quem traduziu o romance "Dona Bárbara").
Nasce sua filha Eulália Dalila Amado, em 1935. Escreve em "A Manhã", jornal da Aliança Nacional Libertadora, pelo qual cobre a viagem do presidente Getúlio Vargas ao Uruguai e à Argentina. "Cacau" é publicado pela Editorial Claridad, de Buenos Aires. Neste mesmo ano "Cacau" e "Suor" seriam lançados em Moscou. Conclui o curso de Direito. Lança "Jubiabá" pela José Olympio Editora.  


Sofre sua primeira prisão em 1936, por motivos políticos: acusado de participar do levante ocorrido em novembro do ano anterior em Natal — chamado de "Intentona Comunista” — é detido no Rio. Publica “Mar morto”, que recebe o Prêmio Graça Aranha, da Academia Brasileira de Letras.
No ano seguinte faz papel de pescador no filme “Itapuã”, de Ruy Santos, no qual também colabora com o argumento. Viaja pela América Latina e depois vai aos Estados Unidos. Enquanto está fora, sai no Brasil “Capitães da areia”. Quando chega a Belém, vindo do exterior, é avisado pelo escritor paraense Dalcídio Jurandir do golpe de Vargas. Foge para Manaus, mas lá é preso. Seus livros, considerados subversivos, são queimados em plena Salvador por determinação da Sexta Região Militar. Segundo as atas militares, foram queimados 1.694 exemplares de "O país do carnaval", "Cacau", "Suor", "Jubiabá", "Mar morto" e "Capitães da areia".
Liberto, em 1938, o escritor é mandado para o Rio. Muda-se para São Paulo, onde reside com Rubem Braga. Depois vai para a Bahia e em seguida, Sergipe; aqui imprime uma pequena edição do livro de poemas “A estrada do mar”, que distribui para os amigos. Estréia em dois consagrados idiomas literários do Ocidente: "Suor " sai em inglês pela pequena New America, de Nova York, e "Jubiabá" em francês pela prestigiosa Gallimard.
Retorna ao Rio no ano de 1939. Exerce intensa atividade política, em decorrência das torturas de presos e a desarticulação do Partido Comunista. Torna-se redator-chefe das revistas Dom Casmurro e Diretrizes. Inicia colaboração com a revista Vamos ler; que manterá até 1941. Compõe, com Dorival Caymmi e Carlos Lacerda, a serenata "Beijos pela noite". O escritor franco-argelino Albert Camus, futuro Nobel de Literatura (1957), escreve artigo no jornal Alger Républicain classificando "Jubiabá" de "magnífico e assombroso".
Diretrizes publica o primeiro capítulo de "ABC de Castro Alves", em 1940, e edita também, em forma de folhetim, a novela "Brandão entre o mar e o amor", iniciada por Jorge Amado e continuada por José Lins do Rego, Graciliano Ramos, Aníbal Machado e Rachel de Queiroz. Trabalha no jornal Meio-Dia.


Decide escrever, em 1941, um livro sobre Luís Carlos Prestes, pensando numa possível campanha por sua anistia. Viaja para o Uruguai a fim de recolher material; também faz pesquisas sobre o tema na Argentina. Lança "ABC de Castro Alves", pela Livraria Martins Editora, de São Paulo.
Publica em Buenos Aires "A vida de Luís Carlos Prestes", em 1942. Embora editado em espanhol, o livro é vendido clandestinamente no Brasil. Volta ao país, mas é preso ao desembarcar em Porto Alegre. De lá é enviado para o Rio. Não permanece, porém, na então capital federal: a polícia decide despachá-lo para Salvador, onde fica confinado.
1943 marca sua volta às páginas de O Imparcial assinando a seção "Hora da guerra" e escrevendo pequenas histórias na coluna "José, o ingênuo", que reveza com o jornalista e escritor baiano Wilson Lins. Sai "Terras do sem fim", seu primeiro livro a ser vendido livremente após seis anos de censura.
Em 1944, a pedido de Bibi Ferreira escreve a peça "O amor de Castro Alves", mas a companhia teatral da atriz é desfeita antes da encenação. Lança "São Jorge dos Ilhéus". Desquita-se de Matilde.
Participa, em janeiro de 1945, na condição de chefe da delegação baiana, do I Congresso de Escritores, em São Paulo. O encontro termina com uma manifestação contra o Estado Novo. Jorge é preso por um breve período juntamente com Caio Prado Jr. O Barão de Itararé apresenta o romancista a Zélia Gattai na Boate Bambu, durante jantar em homenagem aos participantes do Congresso de Escritores. Passa a viver em São Paulo, onde chefia a redação do jornal Hoje, do Partido Comunista Brasileiro. Escreve também na Folha da Manhã. Torna-se secretário do Instituto Cultural Brasil-URSS, cujo diretor era Monteiro Lobato. Sai no Brasil "A vida de Luís Carlos Prestes", rebatizado de "O cavaleiro da esperança". Em julho, passa a viver com Zélia. No mesmo mês participa, ao lado do poeta chileno Pablo Neruda (que em 1971 ganharia o Nobel de Literatura), do comício de Luís Carlos Prestes no Estádio do Pacaembu, em São Paulo. Lança "Bahia de Todos os Santos". É eleito, com 15.315 votos, deputado federal pelo PCB. Publica o conto "História de carnaval" na revista O Cruzeiro. "Terras do sem fim" sai pela respeitada editora A. Knopf, de Nova York.
No ano seguinte assume o mandato na Assembléia Constituinte e passa a residir no Rio de Janeiro. Várias de suas emendas, como a da liberdade de culto religioso e a que dispõe sobre direitos autorais, são aprovadas. Lança "Seara vermelha", pela Martins e, pela Edições Horizonte, do Rio de Janeiro, "Homens e coisas do Partido Comunista". Entusiasmado com a leitura de "Jubiabá", chega à Bahia o fotógrafo e etnólogo francês Pierre Verger, que acabaria se radicando em Salvador e se tornando um dos amigos mais íntimos de Jorge Amado.
Publica, em 1947, pela Editora do Povo, do Rio de Janeiro, "O amor de Castro Alves". É um ano de vários acontecimentos na área do cinema para o escritor: a Atlântida compra os direitos de "Terras do sem fim"; ele escreve os diálogos do filme "O cavalo número 13", uma produção de Fernando de Barros e ainda o argumento de "Estrela da manhã", que seria dirigido por Mário Peixoto, encarregado também do roteiro (o filme acabou sendo feito, mas não por Peixoto). Nasce, no Rio de Janeiro, o filho João Jorge.


Com o cancelamento, em janeiro de 1948, do registro do Partido Comunista, o mandato de Jorge Amado é cassado. Sem assento na Câmara Federal e tendo seus livros considerados como "material subversivo", o escritor, ainda no mês de janeiro, parte sozinho em exílio voluntário para Paris. Em fevereiro, sua casa no Rio é invadida por agentes federais, que apreendem livros, fotos e documentos. Logo após o episódio, Zélia e o filho partem para Gênova, Itália, onde Jorge os apanha, levando-os a residir com ele em Paris. É nesta ocasião que o escritor trava amizade com Jean-Paul Sartre, Picasso e outros expoentes da literatura e da arte mundial. Na Polônia, participa do Congresso Mundial de Escritores e Artistas pela Paz. Com o título de "Terras violentas", estréia no Rio a adaptação da Atlântida do romance "Terras do sem fim". Para comemorar o primeiro aniversário do filho, escreve a história "O gato Malhado e a andorinha Sinhá". Viaja pela Europa e União Soviética.



Em 1949, dirigindo-se para a Tchecoslováquia, onde participaria de um congresso de escritores, sofre um acidente de avião na cidade de Frankfurt, Alemanha; escapa ileso. Morre no Rio, "de repente", conforme conta o escritor, sua filha Eulália.
Por motivos políticos, em 1950, o governo francês expulsa Jorge Amado e sua família do país. O escritor, Zélia e João Jorge passam a residir em Dobris, Tchecoslováquia, no castelo da União dos Escritores. Realiza viagens políticas pela Europa Central e União Soviética. Escreve "O mundo da paz", livro sobre os países socialistas.
No ano seguinte escreve o romance tripartido "Os subterrâneos da liberdade" (Os ásperos tempos, Agonia da noite e A luz no túnel). Sai no Brasil, pela Editorial Vitória, do Rio, o livro "O mundo da paz" pelo qual Jorge Amado seria processado e enquadrado na lei de segurança. Nasce em Praga sua filha Paloma. Recebe, em Moscou, o Prêmio Internacional Stalin.
Vai à China e à Mongólia, em 1952. Volta ao Brasil com a família fixando residência no apartamento de seu pai, no Rio de Janeiro. Responde ao processo por "O mundo da paz". O juiz responsável pelo caso arquiva o processo, dizendo que o livro "é sectário e não subversivo". Com a aprovação, nos Estados Unidos, da lei anticomunista, o escritor é proibido de entrar naquele país; seus livros também são vetados por lá.
Viaja à Europa, Argentina e Chile, em 1953. Na última etapa do giro, é informado sobre a doença de Graciliano Ramos. Volta ao Brasil para rever o amigo, que acabaria morrendo em seguida. Jorge Amado faz então o discurso de despedida à beira do túmulo de Graciliano, a quem substitui na presidência da Associação Brasileira de Escritores. Dirige a coleção "Romances do povo", da Editorial Vitória; acabará fazendo este trabalho até 1956. Sai a quinta edição de "O mundo da paz"; o escritor proíbe reedições da obra, por acreditar que o livro "trazia uma visão desatualizada da realidade dos países socialistas".
O romance "Os subterrâneos da liberdade" é lançado em três volumes, em 1954. A trilogia provoca uma dura reação dos trotskistas brasileiros, gerando polêmica com o jornalista Hermínio Sacchetta (o "Abelardo Saquilá" do romance). Sai em Portugal, pela Editorial Avante, um folheto de seis páginas assinado por Jorge Amado e Pablo Neruda, cujo objetivo era contribuir para a libertação do líder comunista Álvaro Cunhal e marcar posição contra o salazarismo.
De janeiro a março de 1955, permanece em Viena. Em dezembro faz rápida viagem à Bahia.
É lançada, pela Ricordi brasileira, em 1956, a partitura de "Não te digo adeus", com letra de Jorge Amado e música do músico e maestro amazonense Cláudio Santoro. Assume no Rio a chefia de redação do quinzenário Para-todos, ao lado do irmão James, de Oscar Niemeyer e Moacir Werneck de Castro, dentre outros. Sai do Partido Comunista, segundo explica, "porque queria voltar a escrever". Jorge Amado diz que sabia desde 1954 das atrocidades de Stalin, denunciadas publicamente neste ano no XX Congresso do PCUS. "Mas na realidade deixei de militar politicamente porque esse engajamento estava me impedindo de ser escritor", afirma.
Viaja ao Oriente ao lado de Zélia, Pablo e Matilde Neruda, em 1957. "Terras do sem fim" é lançado em quadrinhos. Carlo Ponti, cineasta italiano, compra os direitos de "Mar morto"; mas o filme não chega a ser realizado. Conhece a mãe-de-santo Menininha do Gantois, a quem ficaria ligado até a morte dela, ocorrida em agosto de 1986.



Na tranqüilidade de Petrópolis, em 1958, escreve "Gabriela, cravo e canela". O livro, publicado em agosto, esgota 20 mil exemplares em apenas duas semanas; até dezembro venderia mais de 50 mil exemplares. Sai o disco "Canto de amor à Bahia e quatro acalantos de Gabriela, cravo e canela", trazendo leituras de Jorge Amado e música de Dorival Caymmi.
No ano seguinte, "Gabriela" coleciona prêmios: Machado de Assis, do Instituto Nacional do Livro; Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro e Luiza Cláudio de Souza, do Pen Club, são alguns deles. O romance ultrapassa a casa dos 100 mil exemplares vendidos. Recebe em Salvador, do Axé Opô Afonjá, um dos mais altos títulos do candomblé, o de obá orolu (também receberam tal distinção o compositor Dorival Caymmi e o artista plástico Carybé). "Obá, no sentido primitivo, é um dos doze ministros de Xangô", explica Jorge Amado. Funda a Academia de Letras de Ilhéus. Lança na revista Senhor, do Rio de Janeiro, a novela "A morte e a morte de Quincas Berro Dágua"; a idéia inicial era que este texto, de 98 páginas datilografadas e escrito em dois dias, integrasse o romance "Os pastores da noite". Naquela mesma publicação sairia o conto "De como o mulato Porciúncula descarregou o seu defunto".
Na condição de vice-presidente da União Brasileira  de Escritores, Jorge Amado promove, com o então presidente Peregrino Jr., o Festival do Escritor Brasileiro num shopping center de Copacabana, em 1960. A data do evento, 25 de julho; acabaria sendo consagrada, por decreto governamental, como "Dia do Escritor". Ciceroneia o casal Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir em sua estada no Brasil.
Por unanimidade, é eleito, no dia 6 de abril de 1961, em primeiro escrutínio, para a cadeira 23 da Academia Brasileira de Letras, que pertencia a Otávio Mangabeira. No mesmo mês estréia na Tv Tupi do Rio de Janeiro a adaptação de "Gabriela" feita por Antônio Bulhões de Carvalho e com direção de Maurício Sherman; no papel­título da novela está Janete Vollu de Carvalho e no de Nacib, Renato Consorte. A Metro Goldwin Mayer compra os direitos de adaptação para o cinema de "Gabriela". Com o dinheiro, Jorge  adquire um terreno em Rio Vermelho, então na periferia de Salvador, e começa a construir lá uma casa. Anos depois, o escritor recompraria do estúdio americano os direitos do romance. Ele assegura que não se lembra mais de nenhum dos valores negociados com a Metro. A posse na ABL acontece no dia 17 de julho; lá Jorge Amado é recepcionado por   Raimundo Magalhães Jr. Saí "Os velhos marinheiros", livro que comporta as novelas "A morte e a morte de Quincas Berro Dáguá" e "A completa verdade sobre as discutidas aventuras do comandante Vasco Moscoso de Aragão, capitão de longo curso". É eleito membro do Conselho da Presidência do Pen Club do Brasil. O presidente Juscelino Kubitschek convida-o para ser embaixador do Brasil na República Árabe Unida; o escritor recusa o convite. Homenagens no Rio, na Bahia e em outros estados por seus 30 anos de atividade literária; sua editora, a Martins, lança um livro alusivo à data. A revista francesa Les Temps Modernes publica a tradução de "A morte e a morte de Quincas Berro Dágua".
Seu pai morre no Rio de Janeiro, aos 81 anos de idade, em 1962. Cria a Proa Filmes, companhia de cinema cujo primeiro e único trabalho é a adaptação de "Seara vermelha", com direção de Alberto D'Avessa e estrelada por Marilda Alves; o filme estrearia no ano seguinte. Saí, pela gráfica O Cruzeiro, o romance policial "O Mistério dos MMM", escrito por Jorge Amado, Viriato Corrêa, Dinah Silveira de Queiroz, Lúcio Cardoso, Herberto Sales, José Condé, Guimarães Rosa, Antonio Callado, Orígenes Lessa e Rachel de Queiroz. Viagem a Havana, a convite da União dos Escritores Cubanos.
"O cavaleiro da esperança" é apreendido pela polícia, em 1963. Instala­se na casa do bairro de Rio Vermelho (à Rua Alagoinhas, 33), onde reside até falecer.
 Lança "Os pastores da noite", em 1964.
No ano seguinte publica o conto "As mortes e o triunfo de Rosalinda" na antologia "Os dez mandamentos", da editora Civilização Brasileira, do Rio de Janeiro. Graças à intervenção de Guilherme Figueiredo, então adido cultural do Brasil na França, Jorge Amado e sua família recebem autorização para poder entrar de novo naquele país. A Warner Brothers adquire os direitos de filmagem de "A completa verdade sobre as discutidas aventuras do comandante Vasco Moscoso de Aragão, capitão de longo curso".
Mais de mil pessoas comparecem à primeira sessão de autógrafos de Jorge Amado em Portugal, em 1966, na Sociedade Nacional de Belas Artes. O escritor chega aos mil autógrafos no lançamento de "Dona Flor e seus dois maridos" na livraria Civilização Brasileira, em Salvador. O romance sai com tiragem de 75 mil exemplares. Uma segunda sessão de autógrafos é marcada na capital baiana para atender aos leitores que ficaram de fora da primeira.

Jorge Amado por Carlos Scliar, artista plástico gaúcho, 1947.

A União Brasileira de Escritores, presidida por Peregrino Jr., apresenta em Estocolmo a candidatura formal de Jorge Amado ao Prêmio Nobel de Literatura, em 1967, embora o escritor a recuse. Durante duas horas e meia, Jorge depõe para o arquivo do Museu da Imagem e do Som, na presença de James Amado, do crítico Eduardo Portella e do romancista Antonio Olinto, dentre outros.
A UBE insiste em apresentar novamente a candidatura de Jorge Amado ao Nobel, em 1968. O escritor concorda, mas exige que ela seja feita junto com a do romancista português Ferreira de Castro, seu amigo. O cineasta polonês Roman Polanski visita o escritor na Bahia para "agradecer a alegria que seus livros me proporcionaram na juventude".
No ano seguinte lança "Tenda dos milagres" (tiragem de 75 mil exemplares), livro que começou a escrever na casa de campo do pintor baiano Genaro de Carvalho. Jorge dizia ter sido este seu melhor romance.
Recebe em São Paulo o Prêmio Juca Pato - 1970, da União Brasileira de Escritores, como "Intelectual do Ano". Lidera, ao lado do escritor gaúcho Érico Veríssimo, um movimento contra a censura prévia aos livros. Estréia o filme "Capitães da areia", produção americana dirigida por Hall Bartlett.
Seu primeiro neto, Bruno, filho de João Jorge e Maria da Luz Celestino nasce em Salvador, em 1971. Divide com Ferreira de Castro o Prêmio Gulbenkian de Ficção, entregue na Academia do Mundo Latino, em Paris. Faz conferência no Instituto de Letras da Universidade da Pensilvânia.
Sua mãe morre em Salvador, aos 88 anos de idade, em 1972. Nasce Mariana, a primeira neta, filha de Paloma e Pedro Costa. Sai "Tereza Batista cansada de guerra". A escola de samba Lins Imperial, do Rio de Janeiro, apresenta o enredo "Bahia de Jorge Amado". Numa viagem à Europa encontra, em Barcelona, o escritor colombiano Gabriel García Márquez, futuro Nobel de Literatura (1982).
Nasce Maria João, filha de João Jorge e Maria da Luz, em 1973. Fernando Sabino dirige um documentário sobre Jorge Amado, "Na casa do Rio Vermelho".
Inaugurado em Salvador o Hotel Pelourinho, com registro em placa da época em que o escritor morou naquele local, em 1974.
A Martins, que havia pedido concordata no ano anterior, começa a lançar livros de Jorge Amado em co-edição com a Record, do Rio de Janeiro, em 1975. Marcel Camus leva para o cinema o romance "Os pastores da noite", que é exibido na França com o título de "Otalia da Bahia". Este é o ano também da estréia do maior sucesso do escritor na TV: a adaptação de Walter George Durst do romance "Gabriela, cravo e canela", levada ao ar pela Rede Globo, com direção de Walter Avancini, Sônia Braga no papel-título e Armando Bogus interpretando Nacib.
Com o fechamento da Livraria Martins Editora, em 1976, Jorge passa a ser autor exclusivo da Record. Nasce a neta Cecília, filha de Paloma e Pedro Costa. Estréia no cinema "Dona Flor e seus dois maridos", de Bruno Barreto, com Sônia Braga, José Wilker e Mauro Mendonça. Após três meses de exibição o filme bate recorde de bilheteria — dez milhões de espectadores. Na Bahia, começa a escrever "Tieta do Agreste". Participa da Feira Internacional do Livro de Frankfurt; que neste ano é dedicada à literatura latino-americana. A pedido do filho João Jorge e do amigo Carybé, que faz as ilustrações, publica "O gato Malhado e a andorinha Sinhá".
No ano seguinte, cercado de intensa campanha publicitária, é lançado no Rio o romance "Tieta do Agreste", que Jorge Amado concluíra em Londres. Também no Rio o autor, participa do ato de inauguração da rua Tieta do Agreste, localizada no Recreio dos Bandeirantes, zona sul da cidade. Recebe o título de sócio benemérito do afoxé Filhos de Gandhi. Estréia "Tenda dos milagres", filme de Nelson Pereira dos Santos. Interpreta um dos apóstolos de Cristo na cena da "Última Ceia" do filme A Idade da Terra, de Glauber Rocha. A casa onde o escritor viveu em Ferradas é tombada pela Prefeitura de Itabuna. Grava no Rio, para a Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, trechos de seus romances "Os pastores da noite" e "Tereza Batista cansada de guerra".
Em 1978, Glauber Rocha realiza documentário abordando a obra de Jorge Amado. O escritor oficializa, no dia 13 de maio, sua união com Zélia Gattai; a cerimônia acontece na casa do pintor Calasans Neto, em Itapuã.
Sai "Farda fardão camisola de dormir", em 1979. Estréia na Broadway o musical Saravá, de Richard Nash e Mitch Leigh, baseado em "Dona Flor e seus dois maridos". Escreve, sob encomenda de um banco, para uma edição especial de fim de ano, o conto "Do recente milagre dos pássaros acontecido em terras de Alagoas, nas ribanceiras do rio São Francisco". Lança em disco, pela Som Livre, uma versão do livro "Bahia de Todos os Santos".
Nasce João Jorge Filho, em 1980, outro neto que lhe é dado por João Jorge e Maria da Luz. A revista Vogue Brasil dedica um número a Jorge Amado, que escreve o texto "O menino grapiúna", onde conta reminiscências da época em que viveu na região cacaueira. Daí surgiu a idéia de "Tocaia Grande", que falaria do nascimento e desenvolvimento de uma cidade naquela área. Recebe o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Federal da Bahia. É condecorado como Grande Oficial da Ordem de Santiago da Espada pelo presidente português Ramalho Eanes. Participa, na condição de convidado especial, do programa L'apostrophe, da televisão francesa, comandado por Bernard Pivot.
"O menino grapiúna" é lançado numa edição não-comercial, em 1981. O jornal francês Le Matin publica o conto "Do recente milagre dos pássaros acontecido em terras de Alagoas, nas ribanceiras do rio São Francisco". "Terras do sem fim" estréia na Tv Globo (adaptação de Walter George Durst e direção de Herval Rossano); na trilha sonora, Jorge Amado assina, com Dorival Caymmi, a música Cantiga de cego. No centenário de Ilhéus, o escritor é homenageado com uma placa e uma escultura de bronze numa rua que leva seu nome; uma outra rua ganha o nome de seu pai. É entrevistado em Salvador pelo escritor peruano Mario Vargas Llosa, que à época apresentava, nas noites de domingo, um programa na TV de seu país.
O autor passa a ser nome de rua em Itapuã, em 1982. É homenageado no carnaval de Salvador pelo bloco Dengo da Bahia, que apresenta o enredo Bahia de Jorge Amado. Começa a escrever "Bóris, o vermelho", que, por diferentes motivos, seria seguidamente interrompido e acabou não sendo  concluído. Na primeira vez que adiou a redação de "Bóris", disse que foi "porque a idéia não estava bem amadurecida". Jorge Amado inicia "Tocaia Grande". A Caixa Econômica Federal lança seis milhões de bilhetes de loteria com a efígie do escritor. Zélia Gattai publica Um chapéu para viagem, onde conta como conheceu Jorge. Sai a edição comercial de "O menino grapiúna".
Nasce Jorge Amado Neto, filho de João Jorge com sua segunda mulher, Rízia Vaz Coutrim, em 1983. Inaugurado em Ferradas um busto do escritor. Estréia o filme "Gabriela", co-produção Brasil­Itália dirigida por Bruno Barreto com Sônia Braga no papel-título e o ator italiano Marcello Mastroianni interpretando Nacib.
Em 1984, publica "Tocaia Grande" (com uma anunciada tiragem inicial de 150 mil exemplares). Tenta retomar "Bóris, o vermelho", mas o deixa de lado para escrever "A guerra dos santos", título original do romance que se chamaria "O sumiço da santa". O presidente francês, François Mitterrand, outorga-lhe a comenda da Legião da Honra. Lança "A bola e o goleiro", uma história infantil. Começa a articular a criação da Fundação Casa de Jorge Amado. Zélia publica Senhora dona do baile, onde fala do primeiro exílio do escritor.
Toma posse na Academia de Letras da Bahia (cadeira 21), em 1985. Recebe o título de Grão-Mestre da Ordem do Rio Branco, no grau de Grande Oficial, oferecido pelo governo brasileiro. Participa do Festival de Cinema de Cannes. É homenageado pelo Centro Georges Pompidou, de Paris, onde se realiza um debate sobre sua obra. Estréia na Rede Globo a minissérie "Tenda dos milagres" (adaptação de Aguinaldo Silva e Regina Braga e direção de Paulo Afonso Grisolli, Maurício Farias e Ignácio Coqueiro; no papel de Pedro Archanjo, Nelson Xavier).
Morre, em 1986, aos 73 anos de idade, sua ex-esposa Matilde Mendonça Garcia Rosa. Participa, como presidente do júri, do VIII Festival Internacional do Novo Cinema Latino-Americano, em Cuba; na ocasião, é homenageado por Fidel Castro. Decreto assinado pelo presidente José Sarney no dia 2 de julho, data de aniversário de Zélia Gattai, cria a Fundação Casa de Jorge Amado. Lança, pela Berlendis & Vertecchia, de São Paulo, "O capeta Carybé", sobre o artista plástico argentino, nascido Hector Julio Páride Bernabó, seu amigo desde os anos 50, quando se instalou na Bahia.
Inaugurada, no dia 7 de março de 1987, a Fundação Casa de Jorge Amado, que passa a desenvolver intenso trabalho de preservação e divulgação da obra do escritor. Na presidência da entidade está Germano Tabacof e na diretoria executiva, Myriam Fraga. O símbolo da Casa é um exu desenhado por Carybé, que já vinha aparecendo nas edições dos livros de Jorge Amado. Segundo o escritor, exu é um deus dos mais importantes nas religiões fetichistas; se elas admitissem a existência do diabo, ele seria o diabo. Segundo as mães-de-santo, "exu é uma divindade travessa, uma criança, que adora pregar peças e, principalmente, não admite censura". Recebe o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Lumière, da cidade francesa de Lyon. Lançamento da revista Exu, da Fundação Casa de Jorge Amado; o número de estréia traz uma bibliografia do escritor e um texto dele intitulado "O enterro do Yalorixá". Zélia lança o livro Reportagem incompleta, que reúne fotos que ela fez de Jorge Amado. O escritor recebe o título de sócio honorário do Pen Club do Brasil. Lançado 0 filme "Jubiabá", dirigido por Nelson Pereira dos Santos.
Zélia Gattai publica, em 1988, Jardim de inverno, onde fala do exílio na Tchecoslováquia em companhia de Jorge Amado. A Orquestra Sinfônica da Bahia, sob regência do maestro Carlos Veiga, apresenta uma peça do compositor paulista Francisco Mignone inspirada em "A morte e a morte de Quincas Berro Dágua". Publica "O sumiço da santa". Recebe em Brasília o Prêmio Pablo Picasso, da Unesco, durante o Simpósio Internacional de Escritores da América Latina e do Caribe. Inauguração, em Ilhéus, da Casa de Cultura Jorge Amado.
A escola de samba Império Serrano, do Rio de Janeiro, apresenta o enredo "Jorge Amado - Axé, Brasil", em 1989. Recebe o Prêmio Pablo Neruda, da Associação dos Escritores Soviéticos. Estréia na Rede Globo a novela "Tieta", com adaptação de Aguinaldo Silva, Ana Maria Moretzsohn e Ricardo Linhares e direção de Paulo Ubiratan, Reynaldo Boury e Luiz Fernando Carvalho; no papel-título, Bety Faria. Jorge Amado é entrevistado no programa do escritor Georges Simenon na TF1 (França). Escreve texto em favor da candidatura à Presidência da República, pelo Partido Comunista Brasileiro, do deputado federal Roberto Freire (PE). Estréia na Tv Bandeirantes a minissérie "Capitães da areia", com adaptação de José Louzeiro e Antonio Carlos Fontoura e direção de Walter Lima Jr.
Em 1990, participa, como representante do Brasil, da comissão internacional que dará assessoria ao projeto de reconstrução da antiga biblioteca de Alexandria, no Egito. Aberto em Recife o arquivo do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) pernambucano, no qual o prontuário de número 6.172 trata das atividades políticas de Jorge Amado. Recebe o título de Doutor Honoris Causa da Universidade de Israel e da Universidade Dagli Studi de Bari, Itália. Na Itália recebe os prêmios Cino del Duca, concedido por um júri presidido pelo escritor Maurice Druon, secretário-geral da Academia Francesa. A Universidade Livre de Berlim realiza o seminário "Cultura popular na obra de Jorge Amado".
Paralelamente a "Bóris, o vermelho", escreve "Navegação de cabotagem", relato memorialístico, em 1991. Recebe o teatrólogo e novelista Dias Gomes na Academia Brasileira de Letras. Escreve, sob encomenda, para uma empresa italiana, a história "A descoberta da América pelos turcos", que deveria ser incluída num livro ao lado de textos do americano Norman Mailer e do mexicano Carlos Fuentes. Preside o 14° Festival Cultural de Asylah, Marrocos, cujo tema é "Mestiçagem, o exemplo do Brasil". Participa do Fórum Mundial das Artes em Veneza, Itália.
Estréia na Rede Globo, em 1992, a minissérie "Tereza Batista" (com adaptação de Vicente Sesso, direção de Paulo Afonso Grisolli e Patrícia França no papel-título). Publica "Navegação de cabotagem". Uma série de eventos comemora os 80 anos do escritor. As principais homenagens, naturalmente, se concentram em Salvador: shows no Pelourinho, debates, exposições. Para festejar a data, a Fundação Casa de Jorge Amado publica o livro "Jorge Amado: 80 anos de vida e obra", organizado por Maried Carneiro e Rosane Canelas Rubim. Paloma Amado e Pedro Costa iniciam a revisão completa da obra do escritor, a fim de eliminar erros acumulados ao longo das sucessivas reedições de seus livros. É homenageado no Centro Georges Pompidou com a exposição Jorge Amado, écrivain de Bahia; no mesmo local participa do seminário "Reencontro de dois mundos", realizado para comemorar o quarto centenário do descobrimento da América.
Publica, em 1994, no Brasil, "A descoberta da América pelos turcos" (o projeto do livro com Mailer e Fuentes não vingara, mas o texto de Jorge Amado já tinha saído em 1992 na França). "Gabriela, cravo e canela" inaugura a série de relançamentos revisados da obra do escritor.
Recebe, dos governos brasileiro e português, o Prêmio Camões, em 1995. Começa a escrever um romance provisoriamente intitulado "A apostasia universal de Água Brusca", que focaliza a luta pelo poder entre a igreja e os coronéis do sertão baiano. Recebe o título de Doutor Honoris Causa da Universidade de Pádua, Itália; também na Itália é contemplado com o Prêmio Vitaliano Brancatti. João Moreira Salles realiza o documentário "Jorge Amado".
Em maio de 1996, o escritor sofre em Paris um edema pulmonar. Depois de dez dias de internação, recebe alta e viaja para Salvador, onde em julho comemora com os amigos os 80 anos de Zélia. Estréia "Tieta do Agreste", filme de Cacá Diegues, que também assina o roteiro, ao lado de João Ubaldo Ribeiro e Antonio Calmon. No papel­título, Sônia Braga. Em outubro, é submetido a uma angioplastia. A operação mobiliza atenções do país inteiro e é coroada de pleno êxito. Na saída do hospital o escritor anuncia que retomará "brevemente" seus projetos literários.
O romance "Tieta do Agreste" é escolhido como tema do carnaval de Salvador, em 1997. No domingo de folia, o bloco "Amigos do Amado Jorge", liderado pelo cantor e compositor Caetano Veloso, desfila em homenagem ao romancista, que assiste à festa ao lado de Zélia Gattai no camarote da passarela da Praça do Campo Grande. A editora Record lança "Milagre dos Pássaros", livro com conto ainda inédito no Brasil.
No Salão do Livro de Paris, em 1998, é uma das principais atrações e recebe o título de Doutor Honoris Causa na Sorbonne.  Estréia na Rede Globo a mini-série "Dona Flor e seus dois maridos", adaptação de Dias Gomes para o romance de mesmo nome.
Em maio de 1999, é hospitalizado para fazer exames de rotina e tratar de um mal-estar digestivo.  Em junho, a Fundação Casa de Jorge Amado lança o livro "Rua Alagoinhas 33, Rio Vermelho", sobre a casa em que o autor vivia e sobre seu cotidiano.
Cada vez mais recluso, face a seus problemas de saúde, comemora em agosto de 2000, com poucos amigos e a família, seus 88 anos. Vivia deprimido por se encontrar quase sem enxergar, sob dieta rigorosa, privando-se do que muito gostava: de escrever, de ler um bom livro e de um bom prato.
No dia 21 de junho de 2001, Jorge Amado é internado com uma crise de hiperglicemia e tem uma fibrilação cardíaca. Após alguns dias, retorna à sua casa, porém, em 06 de agosto volta a se sentir mal e falece na cidade de Salvador às 19,30 horas. A seu pedido, seu corpo foi cremado e suas cinzas foram espalhadas em torno de uma mangueira em sua residência no Rio Vermelho.
Leia a linda crônica escrita por João Ubaldo Ribeiro, "Jorge Amado e eu", onde nos fala da dor pela perda de seu grande amigo e incentivador.

Bibliografia
Individuais

Romances:

- O País do Carnaval, 1931

- Cacau, 1933

- Suor, 1934

- Jubiabá, 1935

- Mar Morto, 1936

- Capitães da Areia, 1936

- Terras do Sem Fim, 1943

- São Jorge dos Ilhéus, 1944

- Seara Vermelha, 1946

- Os Subterrâneos da Liberdade (3v), 1954 (v. 1:Os Ásperos Tempos; v. 2: Agonia da Noite; v. 3: A Luz no Túnel)

- Gabriela, Cravo e Canela: crônica de uma cidade do interior, 1958

- Os Pastores da Noite, 1964

- Dona Flor e Seus Dois Maridos: esotérica e comovente história vivida por Dona Flor, emérita professora de Arte Culinária, e seus dois maridos — o primeiro, Vadinho de apelido; de nome Teodoro Madureira e farmacêutico o segundo ou A espantosa batalha entre o espírito e a matéria, 1966

- Tenda dos Milagres, 1969

- Teresa Batista Cansada da Guerra, 1972

- Tieta do Agreste: pastora de cabras ou A volta da filha pródiga, melodramático folhetim em cinco sensacionais episódios e comovente epílogo: emoção e suspense!, 1977

- Farda Fardão Camisola de Dormir:fábula para acender uma esperança, 1979

- Tocaia Grande: a face obscura, 1984

- O Sumiço da Santa: uma história de feitiçaria, 1988

- A Descoberta da América pelos Turcos ou De como o árabe Jamil Bichara, desbravador de florestas, de visita à cidade de Itabuna, para dar abasto ao corpo, ali lhe ofereceram fortuna e casamento ou ainda Os esponsais de Adma, 1994

- O Compadre de Ogum, 1995
Novelas
- A Morte e a Morte de Quincas Berro Dágua, 1959

- A Morte e a Morte de Quincas Berro Dágua (publicada juntamente com Os Velhos Marinheiros ou A completa verdade sobre as discutidas aventuras do Comandante Vasco Moscoso de Aragão, capitão de longo curso, in Os velhos marinheiros, 1961

- Os Velhos Marinheiros ou A completa verdade sobre as discutidas aventuras do comandante Vasco Moscoso de Aragão, capitão de longo curso, 1976
Literatura Infanto-Juvenil:

- O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá: uma história de amor, 1976

- A Bola e o Goleiro, 1984

- O Capeta Carybé, 1986
Poesia:

- A Estrada do Mar, 1938
Teatro:

- O Amor do Soldado, 1947 (ainda com o título O Amor de Castro Alves), 1958
Contos:

- Sentimentalismo, 1931

- O homem da mulher e a mulher do homem, 1931

- História do carnaval, 1945

- As mortes e o triunfo de Rosalinda, 1965

- Do recente milagre dos pássaros acontecido em terras de Alagoas, nas ribanceiras do rio São Francisco, 1979

- O episódio de Siroca, 1982

- De como o mulato Porciúncula descarregou o seu defunto, 1989
Relatos autobiográficos:

- O menino grapiúna, 1981

- Navegação de cabotagem: apontamentos para um livro de memórias que jamais escreverei, 1992
Textos autobiográficos:

- ABC de Castro Alves, 1941

- O cavaleiro da esperança, 1945
Guia/Viagens:

- Bahia de Todos os Santos: guia de ruas e de mistérios, 1945

- O mundo da paz (viagens), 1951

- Bahia Boa Terra Bahia, 1967

- Bahia, 1970

- Terra Mágica da Bahia, 1984.
Documento político/Oratória:

- Homens e coisas do Partido Comunista, 1946

- Discursos, 1993
Livro traduzido:

- Dona Bárbara (Doña Barbara), romance do venezuelano Rómulo Gallegos, 1934
Em parceria:

- Lenita (novela), com Edison Carneiro e Dias da Costa, 1929

- Descoberta do mundo (literatura infantil), com Matilde Garcia Rosa, 1933

- Brandão entre o mar e o amor, com José Lins do Rego, Graciliano Ramos, Aníbal Machado e Rachel de Queiroz, 1942

- O mistério de MMM, com Viriato Corrêa, Dinah Silveira de Queiroz, Lúcio Cardoso, Herberto Sales, Rachel de Queiroz, José Condé, Guimarães Rosa,  Antônio Callado e Orígines Lessa, 1962
Publicações no exterior:

Segundo a Fundação Casa de Jorge Amado, existem registros oficiais de traduções de obras do escritor para os seguintes idiomas: azerbaidjano, albanês, alemão, árabe, armênio, búlgaro, catalão, chinês, coreano, croata, dinamarquês, eslovaco, esloveno, espanhol, esperanto, estoniano, finlandês, francês, galego, georgiano, grego, guarani, hebraico, holandês, húngaro, iídiche, inglês, islandês, italiano, japonês, letão, lituano, macedônio, moldávio, mongol, norueguês, persa, polonês, romeno, russo, sérvio, sueco, tailandês, tcheco, turco, turcumênio, ucraniano e vietnamita (48 no total). Essas traduções foram publicadas no mínimo nos seguintes países: Albânia, Alemanha, Arábia Saudita, Argentina, Armênia, Áustria, Azerbaidjão, Bulgária, Canadá, Chile, China, Colômbia, Coréia do Norte, Coréia do Sul, Cuba, Dinamarca, Espanha, Estados Unidos, Eslováquia, Estônia, Finlândia, França, Geórgia, Grécia, Holanda, Hungria, Inglaterra, Irã, Islândia, Israel, Itália, Iugoslávia, Japão, Letônia, Lituânia, México, Mongólia, Noruega, Paraguai, Polônia, Portugal, República Tcheca, Romênia, Rússia, Suécia, Tailândia, Turquia, Ucrânia, Uruguai, Venezuela e Vietnã; o Brasil também deve ser computado em função da edição nacional em esperanto, totalizando 52 nações.

Dados extraídos de livros do autor, portais da Internet, outros livros e revistas e, em especial, dos Cadernos de Literatura Brasileira publicados pelo Instituto Moreira Salles.