João
Bebe Água e a Resistência que Marcou Sergipe na Mudança da Capital
Adailton
Andrade – Pesquisador e Historiador
A história de Sergipe é
atravessada por um dos episódios mais dramáticos e divisores de águas do século
XIX: a transferência da capital da província de São Cristóvão para o então
pequeno e pantanoso povoado de Santo Antônio de Aracaju, oficializada em 17 de
março de 1855. No epicentro deste turbilhão, entre o choque da modernidade
planeada e a dor de uma tradição ferida, surge a figura de João Nepomuceno
Borges, que a posteridade imortalizou sob a alcunha de João Bebe Água. Longe de
ser apenas o personagem folclórico que a memória popular muitas vezes
simplifica, João Bebe Água foi o rosto, a voz e a alma de uma cidade que se
recusava a aceitar o declínio imposto pelos interesses económicos e políticos
da época.
João Nepomuceno Borges
não era um homem comum de pouca instrução ou relevância social. Registos
históricos indicam que ele nasceu em São Cristóvão por volta de 1818 ou 1822,
oriundo de uma família com posses e influência local, sendo filho do Capitão
Francisco Borges da Cruz e de Maria Rosa de Lima. Ao contrário da imagem de um
simples "bebedor de cachaça" — rótulo que a historiografia oficial
por vezes usou para deslegitimar a sua luta —, os documentos de arquivo revelam
um cidadão com uma vida pública intensa e respeitável. João foi comerciante,
Presidente da Câmara Municipal de São Cristóvão, escrivão de importantes
irmandades religiosas, como a de Nossa Senhora do Amparo, e suplente de
subdelegado. A sua dedicação à causa social foi tal que chegou a ser elogiado
oficialmente pelo governo provincial pela sua atuação voluntária no tratamento
de doentes durante a epidemia de cólera que assolou a região em 1863.
Contudo, foi o seu
fervoroso e quase místico amor por São Cristóvão que o colocou definitivamente
nos anais da história sergipana. Quando o presidente da província, Inácio
Joaquim Barbosa, decretou a mudança da sede administrativa para as margens do
rio Sergipe, visando facilitar o escoamento da produção açucareira através de
um porto mais eficiente, a elite e o povo da quarta cidade mais antiga do
Brasil sentiram o golpe como uma traição. Para João Bebe Água, a transferência
não era uma decisão logística inevitável, mas uma afronta à dignidade de um
povo e de um património secular. Ele tornou-se o principal opositor dessa
transição, canalizando o sentimento de humilhação e o receio do esvaziamento
económico que a perda do estatuto de capital traria para São Cristóvão.
A resistência de João
Bebe Água fundiu realidade e lenda, criando uma narrativa que atravessou
gerações. O episódio mais emblemático do seu protesto envolve a famosa
"promessa dos fogos". Conta a tradição oral que João, inconformado
com a ascensão de Aracaju, estocou uma quantidade monumental de fogos de
artifício na sua residência, jurando solenemente que aqueles artefactos jamais
seriam acesos enquanto a capital não retornasse ao seu lugar de direito. Esse
silêncio pirotécnico tornou-se o símbolo máximo da resistência sancristovense:
uma espera paciente e obstinada por uma reparação histórica que ele, em vida,
jamais veria concretizada.
João Bebe Água faleceu
em São Cristóvão entre 1892 e 1894, numa época em que Aracaju já se consolidava
como o novo centro de poder. No entanto, o seu legado de resistência não se
extinguiu com a sua morte. A sua figura personificava o luto de uma cidade que
via os seus edifícios públicos fecharem e a sua influência minguar. Ele não era
apenas um homem apegado ao passado, mas um líder que questionava a legitimidade
de um progresso que ignorava a identidade cultural e a história de uma
comunidade inteira.
O reconhecimento da sua
importância histórica e a necessária reparação simbólica ocorreriam apenas em
1972. Durante a realização do I Festival de Arte de São Cristóvão (FASC), o
Governo de Sergipe promoveu um ato de grande carga emocional: transferiu simbolicamente
a capital de volta para São Cristóvão por alguns dias. Naquela ocasião, os céus
da cidade finalmente foram iluminados por uma grandiosa queima de fogos,
cumprindo, de forma póstuma e lúdica, o desejo que o velho capitão guardara por
décadas.
Atualmente, o trabalho
de resgate historiográfico busca retirar João Bebe Água do isolamento do
anedotário popular para devolvê-lo ao seu lugar como um intelectual orgânico e
um defensor intransigente da memória sergipana. A sua trajetória serve como um lembrete
permanente de que o desenvolvimento de um estado não deve ser construído sobre
o esquecimento das suas fundações. João Bebe Água permanece vivo na memória
coletiva, não como um vencido pela história, mas como o guardião eterno da
dignidade de São Cristóvão e um exemplo de que a resistência, mesmo quando
manifestada num silêncio carregado de pólvora, tem o poder de ecoar através dos
séculos.
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