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sábado, 18 de agosto de 2012


JORGE AMADO EM SÃO CRISTÓVÃO

texto  e pesquisa  de Thiago Fragata,  o especialista nas pesquisas sobre 

Jorge Amado em Sergipe

Jorge Amado e comitiva na Praça São Francisco, 7/1/1994.
Da esquerda para direita: ?, Alta de Souza, Calasans Neto, Jorge Amado, Vesta Viana, Zélia Gattai, ? e Carybé.


Thiago Fragata*


Sergipe faz parte da vida e obra de Jorge Amado. Escritores dedicaram textos a relação telúrica, sentimental e até familiar do escritor baiano. Rui Nascimento, por exemplo, escreveu Jorge Amado: uma cortina que se abre (2007) rememorando a presença do escritor em Estância nos idos de 1935 e 1937/1938. Mas qual a relação do autor de Gabriela, Cravo e Canela especificamente com São Cristóvão, ex-capital e afamada quarta cidade mais antiga do Brasil? Responder à pergunta encerra o objetivo desse artigo dividido em duas partes.
Jorge Amado nasceu em Itabuna, Bahia, no dia 10 de agosto de 1912. Filho de Eulália Leal e de João Amado de Faria, natural de Estância que cedo migrara para Bahia. O ramo da família paterna viveu boa parte da sua experiência entre esse município, Itaporanga e Aracaju. Ainda assim, consideramos factível destacar São Cristóvão na vida e literatura amadiana.
O segundo romance de Jorge Amado, intitulado Cacau, escrito aos 20 anos, desvela São Cristóvão em 1933, ano de sua publicação. “Romance proletário”, como o próprio autor definiu, trata da vida acidentada de José Cordeiro, conhecido como Sergipano, filho do proprietário da Fábrica de Tecidos de São Cristóvão. Após a morte do pai, vai trabalhar como operário na fábrica gerenciada pelo tio. Demitido injustamente, migrou então para Bahia, indo trabalhar nas plantações de cacau.
Exemplar da literatura engajada do recém-filiado membro do PCB, a obra em tela impressiona pela carga de emotividade e requinte poético. Vale a pena transcrever os parágrafos que versam a quarta cidade mais antiga do Brasil: “A cidade subia pelas ladeiras e parava lá em cima, bem junto ao imenso convento. Olhando do alto, via-se a fábrica, ao pé do monte pelo qual se enroscava a cidade como uma cobra de uma só cabeça inúmeros corpos. Talvez não fosse bela a velha São Cristóvão, ex-capital do Estado, mas era pitoresca, pejada de casas coloniais, um silêncio de fim de mundo, as igrejas e os conventos a abafarem a alegria das quinhentas operárias que fiavam na fábrica de tecidos.
Acho que meu pai montara a fábrica em São Cristóvão devido à decadência da cidade, à sua paz e ao seu sossego, triste cidade parada que devia apaixonar os seus olhos e o seu espírito cansado de paisagens e de aventuras”.
Embora não tenha nominado o genitor ou a fábrica têxtil, desvelamos o quadro da realidade da ex-capital sergipana daquele contexto. Em 1914 foi inaugurada Fábrica Têxtil Sam Christovam S.A., seus proprietários eram Felix Pereira de Azevedo e Othoniel Amado. Sobre este Amado existe uma situação nebulosa relacionada ao nome do romancista talvez um possível parentesco. Cito apenas memória de Junot Silveira, amigo e editor do jornal A Tarde, edição de 11/7/1993: “figura maior do meio social da cidade [São Cristóvão] era o Dr. Pedro Amado, parente de Jorge Amado, proprietário de uma fábrica de tecidos”.
Vejamos como Jorge Amado descreve os sobrados da praça São Francisco, Patrimônio da Humanidade reconhecido pela UNESCO, no dia 1/8/2010. Também, o orfanato da cidade instalado no Lar Imaculada Conceição, antiga Santa Casa de Misericórdia de São Cristóvão:
Nós morávamos então num enorme e secular sobrado, ex-morada particular dos governadores, uma pesadíssima porta de entrada, as janelas irregulares, todo pintado de vermelho, grandes quartos, nos quais eu e Elza nos perdíamos durante o dia brincando de picula. À noite, por brinquedo algum entraríamos num deles, pois temíamos as almas vagabundas do outro mundo, almas penadas que assobiavam e arrastavam correntes, segundo a veracíssima versão de Virgulina, preta centenária que criara mamãe e nos criava agora.
Ao lado da nossa casa ficava o ex-palácio do governo, quase a cair, transformado em quartel onde alguns soldados habitavam, sujos e preguiçosos. Em frente, o orfanato, seis freiras e oitenta meninas, filhas de operários e pais ignorados. (...) As casas, todas antiquadas e atijoladas, estendiam-se pela praça do convento e equilibravam-se pelas ladeiras”.
Pertinente identificar os sobrados. O primeiro trata-se da atual Casa do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), que nenhum documento comprova a função de “residência de ex-governadores”, tampouco Ouvidoria. Pesquisa de 2005 revelou que o sobrado foi construído no século XVIII pelo tenente-coronel Francisco Xavier. Teve ao longo do dezenove, como proprietários, o senhor de engenho Luiz Francisco Freire e o barão Felisberto de Oliveira Freire. Quanto ao outro sobrado, trata-se do atual Museu Histórico de Sergipe. Cumpre destacar que este foi “ex-palácio do governo”, entre 1823 e 1855, perdendo essa função com a Mudança da Capital. No início da década de 1930, o sobrado havia realmente se transformado em quartel da polícia.
O que era a fábrica no romance que assume o olhar do trabalhador nas relações sociais? Narrado na primeira pessoa pelo protagonista, lê-se: “A fábrica era um caixão branco cheio de ruídos e de vida. Setecentos operários, dos quais quinhentas e tantas mulheres. Os homens emigravam, dizendo que “trabalhar em fiação só pra mulher. Os mais fracos não iam e casavam e tinham legiões de filhas, que substituíam as avós e as mães quando já incapazes abandonavam o serviço”.
A obra explicita a predileção no “mundo da fábrica” pelo trabalho feminino e infantil justificado pelos baixos salários. A cidade fabril fotografada no romance relegava aos homens dois destinos: os cafezais de São Paulo ou as plantações de cacau de Ilhéus, da Bahia. Assim, depois de sua demissão, Sergipano prepara as malas e embarca no navio Murtinho, de Aracaju a Salvador.
A leitura de Cacau revela um jovem escritor “sensibilizado com as fortes desigualdades sociais do país” - ele havia se filiado ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) em 1932. Ademais “inicia o ciclo de livros que retratam a civilização cacaueira”, seguido por Terras do sem-fim (1943), São Jorge dos Ilhéus (1944), Gabriela, cravo e canela (1958) e Tocaia Grande (1984). As páginas de Cacau representam, indiretamente, a prova da presença de Jorge Amado em São Cristóvão. Ele escreveu boa parte da ficção em Aracaju em 1932, mas retrata fielmente a cidade histórica. Sua poeticidade faz contraponto com a crítica social que expõe a injustiça na fábrica de São Cristóvão e na fazenda de cacau da Bahia.
Vesta Viana: amiga de Jorge Amado e Zélia Gattai
Jorge Amado semeou livros e amigos. Mas falando um pouco da sua biografia e Sergipe, o autor se casou em 1933, com Matilde Garcia Rosa, na cidade de Estância. Desse pr
 Juntos, o casal de escritores conheceu o mundo. Em São Cristóvão cultivaram uma amizade duradoura com Maria Vesta Viana. Reservamos espaço para evocar a artista sancristovense. No início de 1970, Jorge Amado e Zélia Gattai passearam pelo nordeste e não esqueceram Sergipe. A História e a cultura da vetusta ex-capital fascinaram o casal que resolveu degustar os ares e os acepipes. Num assédio à casa n. 54, da rua Frei Santa Cecília, onde a dona Noêmia Soares Viana comercializava seus doces típicos, descobriram uma menina pintando casarões e igrejas centenárias em meio ao florido jardim. Na ocasião, a jovem artista presenteou o escritor com uma tela.
De volta a Salvador, durante entrevista sobre as impressões da viagem, Jorge Amado comentou a respeito da “jovem artista, meiga, ingênua como os traços retangulares de sua pintura primitivista que ganhou sua atenção, lá na antiga São Cristóvão, cidade retratada em suas linhas e cores”.
As considerações do escritor acerca da menina sancristovense geraram um frisson na imprensa baiana, massificado após o roubo da obra que havia recebido de presente da artista. O caso não foi levado à justiça mas teve um desfecho inusitado. O próprio Jorge Amado esclareceu o sumiço do quadro de sua residência, num tom humorado do seu roteiro de viagem Salvador-Aracaju: “Passe na casa de Maria Vesta Viana e admire sua pintura primitiva, compre um dos seus quadros e leve consigo os conventos e igrejas de São Cristóvão, na ingênua criação da môça sancristovense. Tive um quadro de Vesta, logo roubado por Dorival Caymmi que coleciona pintores primitivos às custas dos amigos”.
Diante da repercussão do fato, uma brincadeira, na edição especial da Revista Manchete, Jorge Amado veiculou a importância de conhecer São Cristóvão, em Sergipe, seu acervo arquitetônico e uma artista: Vesta Viana.
Assim, 1970 figurou como ano-chave na vida da “artista primitivista”, segundo conceito de Jorge Amado. Alguns especialistas cunharam de primitivista, original, desprovida de perspectivas e academicismo, a arte naïf. A propósito, Philipe Jean Marie Meilhac atenta que: “irmana-se, até certo ponto, a arte naïf com a arte popular. Em ambas, o artista projeta na sua criação a mitologia peculiar a sua cultura, a sua terra, a sua gente”.
Os fatos citados oportunizaram o sucesso de Vesta Viana. Com o advento do Festival de Arte de São Cristóvão (FASC), que teve sua primeira edição em setembro de 1972, ela teve sua obra consagrada. O FASC, momento e epicentro das expressões artísticas do Brasil, virou cenário onde a artista nativa e suas obras desfilaram com desenvoltura. Em discursos de abertura, exposições coletivas e individuais, debates e cursos ministrados, a artista naïf brilha, pinta, acontece nas décadas de 1970 e 1980. Mesmo sem formação acadêmica, Vesta Viana teve o reconhecimento de especialistas e críticos que fizeram de sua arte objeto de pesquisa. Antônio Olinto e Zora Seljan, por exemplo, chegaram a encomendar de Londres os quadros de Vesta Viana. Colecionadores como o adido cultural do Brasil em Paris, Clovis Graciano, ostentava fascínio pela obra da artista sergipana.
Para saciar a fome da clientela Vesta Viana montou ateliê em sua casa. Daí seus quadros difundiram-se pelo mundo, entre os anos de 1972 e 1986. A ajuda de Jorge Amado e Zélia Gattai foi importantíssima. Por intermédio deles sua obra integra o acervo do Museu de Arte Primitiva de Guimarães, Portugal. Diversas instituições culturais receberam seus quadros; na Europa, a França, a Espanha, a Inglaterra; na América, Os Estados Unidos e Canadá.
Na cidade que tematiza a obra de Vesta Viana, o mecenas não conheceu apenas igrejas e sobrados, nem saboreou apenas doces e licores, também a peixada e o pirão de guaiamum. Conta Manoel Ferreira que o ilustre escritor almoçou no Bar Candangos e no restaurante do Cristo Redentor com extensa comitiva; gostava de trazer amigos para conhecer os encantos da cidade quatricentenária.
O casal de escritores manteve intensa correspondência com a artista sancristovense. Com presteza, Vesta agenciava artesanato, doces e telas, a pedido ora de Jorge Amado, ora de Zélia Gattai. Da amizade fraterna sobraram fotos, exemplares da literatura amadiana, um epistolário e peças eloqüentes da aura e do fetiche do escritor.
A relação Jorge Amado e São Cristóvão lembra Irmã Dulce. Ambos nasceram na Bahia e por uma circunstância ignorada por muitos, conheceram, vivenciaram e plasmaram a ex-capital sergipana em suas retinas e memórias. A cidade de 420 anos figura na vida dos dois na década de 1930, permanecendo até o ocaso. Disse Jorge Amado a respeito da ex-capital: “Há uma paz na cidade, uma atmosfera azul, uma doçura de vida”. Já Irmã Dulce afirmava que a Bahia deu pra ela a família e São Cristóvão, a certeza de sua vocação religiosa.



*Thiago Fragata – Especialista em História Cultural pela Universidade Federal de Sergipe (UFS), Diretor do Museu Histórico de Sergipe (MHS/SECULT), sócio do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe (IHGSE) e membro do Grupo de Estudos História Popular do Nordeste (GEHPN/CNPq). Publicado no JORNAL DA CIDADE. Aracaju, XL, N. 11713, 2/8/2011, p. B2; N. 11714, 3/8/2011, p. B6. E-mail: thiagofragata@gmail.com
Agradecimentos especiais a Fábio André, pelo entusiasmo em compartilhar a novidade de Cacau.
FONTES CONSULTADAS
AMADO, Jorge. Cacau: romance. 42ª. Ed. Rio de Janeiro: Record, 1983.
A TARDE. Salvador, n. 224, 4/4/1970.
A TARDE. Salvador, n. 369, 27/8/1976.
AMADO, Jorge. Salvador-Aracaju: roteiro saboroso para viajantes sem muita pressa. Revista Manchete (Especial). São Paulo, outubro, 1970.
FRAGATA, Thiago. Vesta Viana: naïf de São Cristóvão. JORNAL DA CIDADE. Aracaju, n. 11051, 17/05/2009, p. B6.
GOLDSTEIN, Norma Seltzer (Org.). A LITERATURA DE JORGE AMADO: orientações para o trabalho em sala de aula. São Paulo: Odebrecht, Cia das Letras, 2008.
GOLDSTEIN, Ilana Seltzer; SCHWARCZ, Lilia Moritz (Org.). O UNIVERSO DE JORGE AMADO: orientações para o trabalho em sala de aula. São Paulo: Odebrecht, Cia das Letras, 2008.
INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL. Intervenções arqueológicas no sobrado do IPHAN. São Cristóvão, 2006.
JORNAL DO BRASIL. Rio de Janeiro, n. 609, 24/5/1970.
Museu Histórico de Sergipe reabre as portas. HISTÓRIA VIVA. São Paulo, ano VII, n. 77, mar. 2010.
NASCIMENTO, Rui. Jorge Amado: uma cortina que se abre. 3ª. Ed. Salvador: Fundação Casa de Jorge Amado, 2007.
SILVEIRA, Junot. São Cristóvão sempre. A TARDE. Salvador, 11/7/1993.
Thiago Fragata entrevista Maria Vesta Viana. São Cristóvão, 18/3/2011.
Thiago Fragata entrevista com Manoel Ferreira Santos. São Cristóvão, 14/11/2008.