quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

PRAÇA FAUSTO CARDOSO E SUAS HISTÓRIAS

HISTÓRIA E MEMÓRIA

PRAÇA FAUSTO CARDOSO E SUAS HISTÓRIAS

NA MEMÓRIA DE MURILLO MELINS

Murillo Melins (foto: Aldaci de Souza,Infonet )



*Adailton dos Santos Andrade


Murillo Mellins nasceu em Neópolis, antiga Vila Nova, em 22 de outubro de 1928. Filho do saudoso Mário Mellins Intendente de Neópolis (antiga Vila Nova) foi uma pessoa simples de um grande conhecimento dos fatos que marcaram a História da capital. Alguns chamam Murillo de memorialista, outros de pesquisador, outros de guardião da História de Sergipe onde puxa as lembranças da memória política e cultural da nossa gente.



Trabalhou na Prefeitura de Aracaju e também nas agências dos Correios. Atualmente, na vida pacata de aposentado vai escrevendo e contando a História sergipana nos seus livros de memória. Com romantismo descreve com maestria Aracaju das décadas de 40 e 50. Mellins tem com Aracaju uma intimidade cumpliciada, como poucos, e ambos, o escritor e a cidade, guardando de cada um muitos segredos segundo escreve Luis Antonio Barreto. Quando se fala em História e Memória, nos bancos acadêmicos, a figura que vem na lembrança é justamente o Murillo. Conhecemos através de suas lembranças a Aracaju romântica que ele viveu. Sem dúvidas, muitos historiadores, escritores e cronistas que se dedicam a escrever sobre Sergipe consultam as suas memórias.


Vejamos o que Murillo Melins diz sobre a Praça Fausto Cardoso:
Em meados de 1855 começou a ser construída sendo um mangue aterrado para dar lugar à Praça do Palácio, como era chamada no final da década. A rua larga da Praça do Palácio foi revestida de pedras calcárias, que ainda hoje sustentam nossos pés na História centenária de Aracaju. Em 1911 e 1920 Aracaju já se impõe como maior centro urbano do Estado e a cidade mais industrializada de Sergipe, confirmando a visão político-administrativa de Ignácio Barbosa.

(Foto: Cristiano Santana )

Na Praça do Palácio, hoje conhecida como Praça Fausto Cardoso, foram colocados os primeiros pinos de demarcação da área a ser construído o centro urbano de Aracaju pelo engenheiro Pirro. Segundo o cronista, a Praça Fausto Cardoso por ser o núcleo do nosso centro histórico, foi onde tudo começou. Palco de grandes eventos políticos e culturais, até o início dos anos 90 era onde acontecia os festejos juninos e o Carnaval. O pesquisador Luíz Antônio Barreto explica que a praça foi o pinhão de ordenamento do quadrado de Pirro, idéia do arquiteto que tomou como modelo um tabuleiro de xadrez para ordenar as ruas do Centro de Aracaju. Na época em que foi construída, a praça, reunia praticamente todos os serviços públicos da Província: o palácio, algumas repartições e a Assembléia Provincial. Ainda hoje a praça abriga importantes instituições, como: o Tribunal de Justiça de Sergipe, a Assembléia Legislativa e Ministério Público Estadual. Dentre os grandes acontecimentos que marcaram a História desta praça temos uma tragédia, a morte de Fausto Cardoso ocorrida há mais de 103 anos no dia 28 de agosto de 1906. Agonizando na praça que depois recebeu o seu nome, cercado de amigos e admiradores, homens, mulheres e crianças que lotavam o centro da cidade. Fausto Cardoso transbordou-se e com ele a alma sergipana. Seu legado está na frase imortalizada com a sua morte: “A liberdade só se prepara na História, com o cimento do tempo e o sangue dos homens.” A frase inteira está contida no discurso que pronunciou em 9 de julho de 1902 ficando conhecida como a Lei e Arbítrio: “A liberdade só se prepara na História com o sangue dos povos, o esforço dos homens, o cimento dos tempos. E se ela não é o preço de uma vitória, não é liberdade, será tolerância, favor, concessão, que podem ser cassados, sem resistência, que se revista do Poder.

Não gera caracteres nem cria personalidade. Enerva, dissolve, abate, humilha, corrompe e transforma os povos em míseras sombras.” A idéia e o sentido da liberdade marcam a biografia de Fausto de Aguiar Cardoso. Assim sendo, em 1912 a Praça Fausto Cardoso recebe um monumento em homenagem a esse grande líder político, plantando-se novos jardins com dois coretos em estilo art-noveau, orgulho dos sergipanos que dali fizeram palco para retretas e manifestações cívicas. Outro monumento se ergue quatro anos depois, em 1916, na Praça Olympio Campos com a estátua do Monsenhor, com um pequeno jardim em torno. Voltando as lembranças do Cronista Murillo Melins que escreve em sua obra “Aracaju romântica que vi e vivi”, “ Meu coração se enche de saudades quando passo pela Praça Fausto Cardodo e recordo as grandes construções da sua época que hoje não existem mais”.



Dentro da minha linha de pesquisa cito um trecho do discurso do interventor Augusto Maynard ao comunicar à população o trágico torpedeamento dos navios brasileiros na costa sergipana, onde ele pede: “calma, e muita calma sergipanos” Murillo Melins conta que houve também o linchamento do líder trabalhista Lídio Paixão(1954) próximo à estátua de Fausto Cardoso no dia 24 de agosto. A Praça foi palco dos grandes comícios políticos que ainda hoje são lembrados com seus discursos eloqüentes, tais como: Jorge Amado em 22 de dezembro de 1946, Plínio Salgado, Seixas Dória, Leandro Maciel, Maynard Gomes, Getúlio Vargas, Eduardo Gomes, Carlos Prestes, entre outros. Foi em 1947 no discurso de Carlos Prestes que os jornais da época anunciavam que era a maior concentração política na História de Sergipe. “Todo o povo a praça fausto Cardoso” tinha como manchete principal o Jornal do povo em 4 de janeiro de 1947 citando que o povo de Sergipe esperava ansiosamente para ouvir “o cavaleiro da esperança”, assim como era chamado Carlos Prestes.


Em 11 de janeiro de 1947 Augusto Maynard discursa dando uma resposta ao comício anterior de Carlos Prestes. O discurso ficou famoso até os dias de hoje com seu início narrativo, “Ainda uma vez o refrão... Os homens são como as montanhas. Vistas ao longe, belas, altaneiras, inexpugnáveis; de perto, que decepção!”. Maynard via o líder comunista como um traidor da pátria. O povo de Sergipe ouviu do próprio Maynard relatos sobre o julgamento de Prestes, onde foi acusado de mentor intelectual do assassinato da jovem Elza Fernandes contando com riqueza de detalhes como aconteceu o crime. Já no jornal de 04 de fevereiro de 1947 tinha como principal manchete, o discurso do comício de 11 de janeiro na Praça Fausto Cardoso, em primeira página Maynard dizia assim: “Devota-me ódio de morte, porque cumpri o meu dever. Condenando Prestes como autor intelectual do mais bárbaro crime que já se praticou em terras do Brasil”. Atualmente a Praça Fausto Cardoso, após grande reforma, está de cara nova. Contudo, felizmente foram preservadas as suas características históricas deixando na lembrança dos que viveram essa época fatos que marcaram a vida dos sergipanos. Devemos recordar que a Praça foi palco de inúmeras retretas, shows, comícios, desfiles de moda das mocinhas que saíam da missa. Não esquecendo o relógio público de quatro faces, como descrito por Murillo Melins em sua obra. Mesmo não vivendo nessa época ao passar pela Praça paro e recordo as agradáveis conversas com o cronista maior. Eis, em nossa cidade, mais um ponto turístico cercado de tantos acontecimentos importantes que marcaram a História política e cultural de todos os sergipanos.


____________________


dados do Autor: *

Licenciado em História, pós-graduado em Ensino Superior em História. Pós Graduando em Sociedade e Cultura Sergipana, aluno especial de mestrado em Ciências Sociais da Universidade Federal de Sergipe. Membro do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe.Membro na qualidade de pesquisador dos Grupos de Estudo e Pesquisa da UFS: Estudo do Tempo Presente / UFS. Grupo de Estudos e Pesquisas em História das Mulheres (UFS / CNPq) Grupo de Estudos e Pesquisas Processos Identitários e Poder /UFS . Professor da rede particular e Pública de ensino. Contato : adailton.andrade@bol.com.br adailton_andrade@hotmail.com

___________________________________
Bibliografia: Textos de Luiz Antônio Barreto. Entrevista a Agência Aracaju de Notícias (AAN) com o professor de história do Cefet/SE), Amâncio Cardoso, Murillo Melins – “Aracaju Romântico que V i e Vivi”

3 comentários:

  1. Sou divinapastorense (da gema como Fausto de Aguiar Cardoso), e confesso ter gostado absurdamente dessa postagem que me deixou num afã por ler o livro dessa extraordinária pessoa que o Murillo Melins. Parabéns!

    J Alves

    ResponderExcluir
  2. o sergipano devia conhecer mais seus vultos históricos e a respectiva història do seu Estado,
    Este blog é a fonte ideal para elucidações.
    nelsorcruz

    ResponderExcluir